sexta-feira, 31 de julho de 2009

Sobre Leonard Ravenhill




Leonard Ravenhill nasceu em 1907 na cidade de Leeds, em Yorkshire, Inglaterra. Após sua conversão a Cristo, ele foi treinado para o ministério na Faculdade Cliff. Logo tornou-se evidente que evangelismo era seu forte, e ele se envolveu nisto com muito vigor e poder. Depois ele veio a se tornar um dos pioneiros em evangelismo ao ar livre da Inglaterra no século 20. Suas reuniões nos anos da Guerra arrastaram multidões na Inglaterra, e grande número dos seus convertidos não apenas seguiram o Salvador para o Reino, mas também para o ministério e para o campo missionário no mundo. Em 1939 casou-se com uma enfermeira irlandesa chamada Martha. Juntos eles tiveram três filhos. Paul e David são pastores e Philip é professor. Ao contrário de muitos evangelistas de hoje, as conversões causadas pela pregação de Leonard eram geralmente conversões duráveis. Isto foi porque ele não diminuiu a força e a eficácia do evangelho enquanto pregava. Quando idoso, Leonard e sua família se mudaram para os Estados Unidos, onde trabalhou com a Bethany House Publishers. Nos anos 80, Leonard e sua família se mudaram para perto de Lindale, Texas, a uma curta distância do Last Days Ministries. Leonard regularmente dava aulas no Last Days Ministries, e foi um mentor do falecido Keith Green.

A. W. Tozer, que foi um amigo de Leonard, diz sobre Leonard: "O débito que o povo de Deus tem para com esses servos dele é tão vultoso que nunca poderá ser pago. E o curioso é que eles raramente pensam em saldá-lo enquanto esses indivíduos estão vivos. Em compensação, a geração seguinte o exalta, escreve livros sobre seus feitos, como se, instintivamente e meio sem jeito, quisesse desincumbir-se de uma obrigação que a geração anterior praticamente ignorara. "Quem conhece Leonard Ravenhill vê nele esse especialista espiritual, esse homem enviado por Deus, não para realizar um ministério na obra regular da igreja, mas para fazer frente aos profetas de Baal, desafiando-os em seu próprio território, para envergonhar os negligentes sacerdotes que oficiam no altar, para enfrentar os falsos profetas, e advertir o povo que está sendo desviado do caminho certo por influência deles. "Um homem como esse às vezes não é companhia muito apreciada”.

O evangelista profissional que sai correndo do culto assim que ele se encerra, e vai para um restaurante de luxo contar piadinhas com os amigos, talvez o considere uma presença embaraçosa. Pois ele não é desses que conseguem silenciar a voz do Espírito Santo em seu coração como quem fecha uma torneira. Ele insiste em ser um crente fiel o tempo todo, onde quer que esteja. E nisso também distinguese de muita gente.”Eu o conheci em 1989, quando ele estava com 82 anos de idade e com a saúde fragilizada. À primeira vista, eu não pensei que Deus poderia ainda usar este frágil homem de cabelos brancos. Ele caminhava sem firmeza e lentamente, e algumas vezes precisava de ajuda para se levantar e sentar em sua cadeira. Porém, assim que abriu sua boca, eu imediatamente notei que minha impressão inicial estava errada. Com 82 anos, Leonard ainda falava com fogo e convicção, e parecia que seu olhar estava penetrando bem dentro da minha alma. Durante os últimos anos de sua vida, Leonard liderou uma reunião de oração que ocorria uma vez por semana (depois uma vez por mês), e era frequentada primeiramente por pastores e evangelistas. Alguns destes homens viajavam cerca de 4 horas para participar destas reuniões de oração. Eu compareci a estas reuniões de 1989 até que eles terminaram no verão de 1994, poucos meses antes da morte de Leonard. Durante os anos que frequentei a estas reuniões, eu nunca saia de lá sem haver sido profundamente desafiado pelo que Leonard havia dito.

Um dos dons de Leonard era a habilidade de espontaneamente formular frases espiritualmente impactantes enquanto falava. Essas eram curtas e memoráveis observações acerca de Deus, da igreja e do mundo.

Autor: David Bercot
Retirado do site: Habitantes de Sião

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Erótico versus Espiritual - A. W. Tozer


E este texto foi escrito há uns 50 anos...

A época em que vivemos poderá ficar conhecida como a Idade do Erotismo. O amor sexual se tornou uma forma de culto. Entre os homens civilizados, Eros tem mais adoradores do que qualquer outro deus. Para milhões, o erótico tem substituído completamente o espiritual.

Os fatores

Não é difícil determinar como o mundo caiu nesse estado. Fatores contribuintes são as emissoras de rádio e os aparelhos de som, que podem disseminar uma música de amor por todo um país em poucos dias; o cinema e a televisão, que proporcionam a toda uma população a oportunidade de banquetear-se com mulheres sensuais e jovens soberbos unidos em abraços apaixonados (nas salas de visitas de lares “cristãos”, aos olhos de crianças inocentes!); menos horas de trabalho e a multiplicação de máquinas automáticas que resultam no aumento do lazer para todos.

Juntemos a tudo isso dezenas de campanhas de propaganda concebidas inteligentemente, que transformam o sexo em isca não muito bem disfarçada, a fim de atrair compradores para quase todos os produtos imagináveis; os escritores infames que consagraram suas vidas à obra de tornar conhecidas as levianas e falsas nulidades, utilizando personagens que têm carinha de anjo e moral de prostituta; novelistas sem consciência que alcançam fama duvidosa e enriquecem à custa da perniciosa ocupação de drenar do esgoto de sua alma podridões literárias que entretêm as massas. Tudo isso nos mostra como Eros conseguiu triunfar sobre o mundo civilizado.

Se esse deus não importunasse os crentes, não haveria razão para inquietar-me com o seu culto. Um dia, toda a sua fétida sujeira ruirá sobre si mesma, tornando-se um excelente combustível para o fogo do inferno, uma justa recompensa, fazendo-nos ter compaixão daqueles que forem engolidos na sua trágica ruína. Se as coisas fossem diferentes do que realmente são, as lágrimas e o silêncio seriam melhores do que as palavras. Mas o culto de Eros está afetando seriamente a igreja. A límpida religião de Cristo, que flui do coração de Deus como um rio cristalino, está sendo poluída pelas águas sujas que escorrem do altar da abominação que se vê em todos os outeiros e debaixo de todas as árvores, em todas as parte de nosso país.

Os crentes estão sendo influenciados

A influência desse espírito erótico está sendo percebida em quase todos os círculos evangélicos. Grande parte da música cantada em certos tipos de reuniões transpira mais romance do que a voz do Espírito Santo. Cânticos e músicas foram escritos para despertar a luxúria. Cristo é tratado com uma familiaridade que revela ignorância completa a respeito do seu caráter. O que predomina não é mais a reverente intimidade do santo que adora, e sim a impudica familiaridade do amante carnal.

A ficção religiosa tem utilizado o sexo para criar interesse em seus leitores, servindo-se da aparente desculpa de que, entrelaçando o romance erótico com a religião em uma ficção, o leitor habitual, que não gasta tempo com um livro puramente religioso, desejará ler a ficção e, assim, conhecerá o evangelho. Não levando em conta o fato de que os mais modernos romancistas religiosos são apenas amadores, incapazes de escrever pelo menos uma linha de literatura realmente boa, o conceito de romances espirituais está errado.

Os impulsos libidinosos e o doce e profundo estímulo do Espírito Santo são diametralmente opostos. A noção de que Eros pode servir como um auxilio ao Senhor da glória é ultrajante. Os filmes “cristãos” que procuram atrair o público com cenas amorosas em sua propaganda são completamente contrários à religião de Cristo. Somente os que se acham espiritualmente cegos podem ser enganados.

A moda da beleza física e de personalidades brilhantes nas produções religiosas é uma manifestação da influência do sentimento romântico na igreja. O balanço rítmico, o sorriso inalterável e a voz demasiadamente alegre enganam o religioso mundano. Ele aprendeu a sua técnica na televisão, mas não o suficiente para obter sucesso no campo profissional; por isso, ele traz sua produção ineficiente para o lugar santo, mascateando-a aos cristãos débeis e mal nutridos, que buscam algo para divertirem-se, enquanto fazem parte da maioria religiosa popular.

Tempo para falar

Se a minha linguagem parece severa, lembrem-se de que não está sendo dirigida a ninguém pessoalmente. Sinto grande compaixão pelo mundo dos homens perdidos e desejo que todos venham ao arrependimento. Pelos crentes cujas vigorosas mas errôneas lideranças têm desviado a igreja moderna do altar de Jeová para o altar do Erro, sinto amor e compaixão. Quero ser o último a injuriá-los e o primeiro a per- doá-los, lembrando-me dos meus pecados passados e da minha necessidade de misericórdia, bem como de minha própria fraqueza e inclinação natural para o pecado e o erro. A jumenta de Balaão foi usada por Deus para repreender um profeta. Concluímos disto que Deus não requer perfeição no instrumento que usa pa-ra admoestar e exortar seu povo.

Quando o rebanho de Deus está em perigo, o pastor não deve contemplar as estrelas e meditar sobre temas “inspirativos”. Está moralmente obrigado a pegar suas armas e a correr para defendê-lo. Quando as circunstâncias exigem, o amor tem de usar a espada, embora tenha o desejo de enfaixar o coração quebrantado e cuidar do ferido. Chegou o tempo de o profeta ser ouvido novamente. Durante as últimas décadas, a timidez disfarçada em humildade tem-se mantido no seu canto, enquanto a qualidade espiritual da cristandade evangélica tem se tornado pior a cada ano que passa. Por quanto tempo ainda, Senhor? Por quanto tempo?

terça-feira, 28 de julho de 2009

Dez ciclos e uma camisa (Ten Shekels and a Shirt) completo (5 partes) - Paris Reidhead

Esta é uma das maiores mensagens do século vinte, e marcou profundamente minha vida e toda minha visão do Cristianismo. Que você também seja impactado com a profunda mensagem de Paris Reidhead. Mensagens como essa são muito raras nos dias de hoje, pois são uma afronta ao evangelho utilitário e nos força a tomar uma decisão: afinal de contas, Deus é um meio ou o fim em Si mesmo?















O monte e o santo lugar - Daniel S. Oliveira



“Quem subirá ao monte do SENHOR? Quem há de permanecer no seu santo lugar?” Sl 24:3

Uma pergunta é feita: Quem subirá ao monte do SENHOR? E uma multidão empolgada levanta as mãos. Todos querem subir ao monte. Há um alvoroço na multidão, empurra daqui, dali. Todos correm para subir ao monte. Todos querem estar lá no alto, estar por cima, acima dos outros, sair da mediocridade. Seus olhos brilham quando olham o monte. Dizem em seus corações: Quando chegar lá, serei alguém. Todos vão me ver. O monte é admirado, desejado, afinal de contas, só os “homens de Deus” sobem ao monte. O monte é um lugar alto. Estar no monte, é estar acima dos outros. É destacar-se na multidão. É aparecer. É o sonho de todos que querem ser alguma coisa. Estar no monte, é tornar célebre o seu nome!(Gn 11:4) Existem duas classes de pessoas: os que estão no monte, e os que não estão no monte. Se você não está no monte, você não é ninguém.
Existem aqueles, que se aproveitam dessa correria. Viram nisso uma oportunidade. Ensinam como subir mais facilmente, qual o melhor caminho, o melhor atalho, tudo isso, é claro, que em troca de uma pequena quantia... Há alguns que já subiram e agora ensinam outros a subir também. Faz-se até curso! Existem livros, manuais, CD’s, congressos, camisas (“estou subindo o monte”) e toda a forma de marketing. Tem para todos os gostos, e bolsos... E o comércio se multiplica.(Ez 28:16) E a multidão nem avalia a qualidade, faminta pelo topo, paga qualquer preço e segue qualquer caminho, não sabendo que existem caminhos enganosos (Pv 14:12).
Após algum esforço, finalmente eles chegam ao topo da fama, quero dizer, do monte. Cheios de si, olham para os outros com certo desdém e dizem em alta voz: Olhem para mim! Eu subi! Cheguei ao monte! Vejam! Eu consegui! Sou um homem de Deus! É fruto do meu esforço! Eu mereço! E se vocês se esforçarem (muito), pode ser que consigam também. Alguns poucos, quando alcançam o topo, até se lembram de orar e dizem: “Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens...” (Lc 18:11) E assim, muitos querem subir o monte, não por causa do SENHOR, mas em busca da própria glória. Mas depois que já estão lá, oh! Que tristeza! Deus não está aqui! Descobrem que estão no monte errado, descobrem que não estão em Sião, mas em Babel. Não sabiam que o orgulho nunca poderia levá-los a Deus. Eles até que poderiam descer e procurar o monte correto, mas descer do monte? Nunca! Jamais! Abandonar os aplausos da multidão? Abandonar as alturas? Pra quê? Vamos fingir que Deus está aqui conosco e ficar por isso mesmo. Cada um ocupe o seu tão ambicionado cargo, e depois é só fingir que é pra Deus...
Agora outra pergunta é feita: Quem há de permanecer no seu santo lugar? Ah sim, existe um outro lugar: é o santo lugar. Mas que lugar é esse? Me lembro vagamente de ter ouvido falar dele quando me converti. Será que ele realmente existe, pois agora só se fala do monte? Sim, ainda existe. É um lugar que não chama muita a atenção. Não está no jornais, não dá ibope “gospel”. É um lugar secreto, conhecido apenas pelos pequeninos.(Lc 10:21) E o caminho ainda é muito estreito, estreito demais pra deixar passar qualquer orgulho. Para passar, é preciso abandonar muitas coisas, muitos prazeres, coisas que até amamos, mas que não cabem no caminho.
Para se chegar neste lugar, não há guias, não há métodos, não há fórmulas mágicas ou dinheiro que pague. Aliás, existe um único guia, chamado Espírito Santo, que exigirá sua total obediência para levá-lo até lá. Muitos até começam a caminhada, mas quando encontram a primeira pedra, se escandalizam, olham para trás e retrocedem. Para continuar no caminho, é necessário fé e perseverança. É necessário amor. Algumas vezes pode se até cair, mas o Consolador sempre está lá para levantá-los. Jamais os desampara. E todo aquele que perseverar até ao fim, alcança o santo lugar.
Ah! Que alegria! Não há nada que se compare ao santo lugar. Ali não há ambições, guerras, dor ou lágrimas. Aliás, há lágrimas sim. Lágrimas daqueles que foram constragidos pelo amor do Santo, e agora lavam Seus pés com suas lágrimas. Ali, reina a paz de Deus que excede todo entendimento e a bandeira deles é o Amor. Corações gratos exultam em uníssono o nome do Senhor, pois o Senhor está com eles. Aqueles que foram lavados pelo sangue carmesim, cantam o cântico novo com júbilo no coração.(Sl 100:1) Ali há uma mesa de banquetes, e todos os que combateram o bom combate do caminho agora se fartam junto ao Rei. Todos querem armar suas tendas e viver o eterno sábado. Ali há consolo, abrigo, bálsamo. Não há ferida que não seja curada. Mas também não há glória para homens. Só um é exaltado, o Ùnico que é digno. E todos se alegram com o Rei. Mas para se permanecer ali, ainda há um preço. O Santo lugar é um lugar santo, e é onde o Santo habita, por isso é necessário santidade. É necessário renúncia, obediência. O infiel é expulso, e não se acha mais o seu lugar. E ao fiel o Pai diz: tudo o que tenho é teu.(Lc 15:31) Ali não há temor nem medo, pois foram banidos pelo perfeito Amor. (I Jo 4:18) E os que ali vivem, não se deixam vender por nada, vivem em eterna adoração. Vivem acima das coisas terrenas que tanto atraem os corações ímpios. Pois o santo lugar, fica no mais alto monte, num monte chamado Sião.
Daniel S. Oliveira

Procura-se um Coração em Chamas! - Wesley L. Duewel




Para o líder cristão, não existe nenhuma alternativa para o Espírito Santo. É necessário que o líder tenha um coração abrasado pelo amor a Deus e aos homens. Como afirmou Dr. George W. Peters: “Deus, a igreja e o mundo estão à procura de homens com corações em chamas – corações cheios do amor de Deus; cheios de compaixão pelos males, tanto da igreja quanto do mundo; cheios de paixão pela glória de Deus, o Evangelho de Jesus Cristo e a salvação dos perdidos”.

“A resposta de Deus”, acrescenta ele, “para um mundo cheio de indiferença, materialismo, frieza e escárnio são corações ardentes nos púlpitos, nos bancos das igrejas, nas escolas bíblicas e nos colégios e seminários cristãos.”

Se você é um líder cristão, e o seu coração não está ardendo em chamas, com toda certeza a maioria dos membros de sua igreja terá um coração morno, que pouco ou nenhum impacto tem sobre o mundo. As nossas comunidades não se impressionam muito com nossos programas e infindáveis atividades. Para ter impacto sobre a comunidade, precisa ter algo além de uma igreja ativista, preocupada em atender e ajudar os visitantes. Precisa ser uma igreja em chamas, liderada por homens que têm o ardor de Deus em seus corações.

Samuel Chadwick, o falecido presidente do Cliff College, da Inglaterra, era uma “sarça ardente”. A partir do momento em que ficou cheio do Espírito, “milagres da graça divina eram realizados através da influência de uma vida que passou a ser incendiada pelo fogo de Deus”. Francis W. Dixon conta como “o poder de sua pregação e a influência moral dos membros de sua igreja foram tão poderosos, que o próprio Chefe de Polícia reconheceu publicamente como a cidade inteira ficara livre de crimes pela influência de homens e mulheres que haviam sido incendiados pelo amor de Deus”.

Dizem que uma vez um colega pastor perguntou a John Wesley, mensageiro do coração ardente, o que devia fazer para aumentar sua igreja. Ele respondeu: “Se o pregador estiver em chamas, todo o mundo virá para vê-lo queimar”.

Um dos biógrafos de Wesley o descreveu como um homem “sempre ofegante, correndo sem parar atrás das almas perdidas”. No túmulo de Adam Clarke, um dos primeiros estudiosos metodistas e um discípulo de Wesley, estão inscritas estas palavras: “Vivendo para os outros, fui totalmente consumido”.

Há um século, T. DeWitt Talmage escrevia: “Hoje, acima de qualquer outra necessidade, nos falta o fogo – o fogo sagrado de Deus, queimando nos corações dos homens, estimulando suas mentes, impelindo suas emoções, emocionando suas línguas, brilhando em seus rostos, vibrando em seus atos, expandindo seu potencial intelectual e fundindo todo o seu conhecimento, lógica e retórica em uma grande corrente inflamada. Que esse batismo de fogo venha sobre nós a fim de que milhares entre nós, que até hoje não passaram de ministros fracos e convencionais, sem qualquer contribuição marcante e que seriam facilmente esquecidos da memória da humanidade, sejam transformados em poderosos instrumentos de Deus”. Essa descrição continua tão válida hoje quanto naquela época.

Alguns anos atrás, quando a Polônia vivia sob o regime comunista, um soldado polonês comentou com o Dr. Harold John Okenga: “Existe na Polônia uma corrida entre o comunismo e o cristianismo. Aquele que conseguir transformar sua mensagem em uma chama de fogo ganhará”.

Um cristianismo sem paixão não conseguirá apagar as chamas do inferno. Para combater o fogo de uma floresta é necessário iniciar um outro incêndio para ir ao seu encontro. Um líder apático nunca conseguirá inflamar os outros. E um líder jovem sem ardor, como poderá acender a chama no coração dos outros jovens? Enquanto não formos inflamados, não conseguiremos alcançar o coração das pessoas. O bispo Ralph Spaulding Cushman orava:

Inflama-nos, Senhor, sacode-nos, nós te suplicamos!

Enquanto o mundo perece, nós, indiferentes,

Seguimos o nosso caminho

Sem rumo, sem paixão, dia após dia

Inflama-nos, Senhor, sacode-nos, nós te suplicamos!

Não há uma necessidade maior que essa em nossas igrejas e escolas hoje. Não basta ter uma fé cristã e bíblica; temos de ser possuídos por Cristo, totalmente tomados por seu amor e sua graça, inteiramente inflamados por seu poder e glória. Cada pequenina parte do nosso ser, como diz certo hino do passado, precisa estar incandescente com o fogo divino. Não é suficiente ter a lenha, não é suficiente ter o altar, não basta ter o sacrifício – precisamos do fogo! Oh, fogo de Deus, desce novamente sobre nós! Faz-nos arder, Senhor, inflama-nos totalmente!

Se quisermos ser uma força irresistível para Deus, no lugar onde ele nos colocou, precisaremos do batismo de fogo do Espírito Santo. Se quisermos despertar nossas igrejas sonolentas, precisaremos que aquele fogo, que veio sobre cada um que esperava no cenáculo no dia de Pentecostes, desça agora sobre nós. Você precisa disso, e eu preciso disso.

Num comovente artigo, intitulado “Queima Incessantemente, Fogo de Deus”, T. A. Hegre escreveu: “É de fogo que precisamos, fogo para derreter nossas emoções geladas e passivas, fogo para nos impelir a fazer algo em favor daqueles que descem diariamente à sepultura sem Cristo. Incontáveis milhões estão morrendo sem que ninguém lhes tenha falado do Evangelho, porque nós cristãos estamos apagados. Precisamos de fogo, do fogo do Espírito!”

Não precisamos de fogo fanático ou humano, que não glorifica o nome santo do Senhor. Precisamos é do fogo sagrado, daquele fogo que o Espírito traz e que usa para nos batizar. Precisamos do fogo e do zelo da igreja primitiva, quando praticamente todos os cristãos estavam prontos, se necessário fosse, a se tornarem mártires por Cristo.

Num sermão contundente, John R. Rice censurou nossa falta de fogo. “Ouçam, não são os pecadores que são duros. O problema de dureza está no coração dos pregadores. Os professores das escolas bíblicas, os diáconos, os obreiros e os superintendentes é que são duros. É mais fácil salvar uma alma e converter um bêbado ou uma prostituta do que inflamar um pregador para ganhar almas.”

George Whitefield foi grandemente usado por Deus, junto com John Wesley, quando viraram a Inglaterra de ponta-cabeça e, pela graça de Deus, evitaram que as Ilhas Britânicas passassem por uma réplica da Revolução Francesa. Diziam a respeito de Whitefield: “Desde o tempo em que começou a pregar, ainda garoto, até à hora de sua morte, nunca deixou que sua paixão se abatesse. Até o final de sua notável carreira, sua alma foi como uma fornalha ardente de dedicação em favor da salvação dos homens”.

Sua alma como uma fornalha ardente! Ah, aqui está o segredo! O problema trágico é que estamos tentando conduzir o povo de Deus com corações que nunca foram inflamados ou que perderam o ardor. Elias orou até o fogo descer sobre o monte Carmelo. E, então, os apóstatas caíram de joelhos e clamaram: “O Senhor é Deus! O Senhor é Deus!” (1 Rs 18.39).

Pode o fogo da Shekiná, que fez chamejar a sarça no deserto, atear fogo em nossos corações, até que sejamos sarças ardentes por Deus? (Êx 3.1-3). O fogo da Shekiná no monte Sinai difundiu-se pelo corpo de Moisés até que sua face refletisse a glória de Deus (Êx 34.29,30). Podemos nós nos aproximarmos de Deus até que o fogo da Shekiná comece a transfigurar nossos vasos de barro e as pessoas possam ver o reflexo da glória de Deus sobre nós e em nós?

Pode o fogo da Shekiná, que Ezequiel viu afastar-se passo a passo de Israel, voltar para nós hoje? (Ezequiel, capítulos 10,11). Ele voltou sobre os 120 que se encontravam no mesmo lugar, no cenáculo (At 2.1-21). Se precisássemos passar dez dias para buscar a face de Deus, seríamos mais do que recompensados se no final fôssemos inflamados por ele.

Mas esse batismo não vem por meio de esforços, méritos ou simulações. Só Deus pode batizar com fogo. Só Deus pode enviar a Shekiná. Só Deus pode satisfazer suas necessidades e as minhas. Já labutamos muito tempo sem esse fogo. Temos ficado muito aquém da glória de Deus, por causa da falta dele. Temos deixado nossas igrejas praticamente impassíveis, inalteradas, por falta da chama.

Nós não podemos acender esse fogo. Não podemos criá-lo por nós mesmos. Mas podemos humilhar-nos diante de Deus, com toda a honestidade e lisura, e confessar nossas carências. Podemos buscar a face de Deus, até que sua poderosa lanterna alumie nossos corações e nossas vidas e mostre o que neles nos impede de sermos capacitados e cheios de sua vida.

O fogo santo de Deus desce somente sobre os corações preparados, obedientes e famintos. Talvez a necessidade que está por baixo de todas as necessidades é que não estamos suficientemente famintos ou sedentos, nem somos intensos em nosso desejo.

“Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais o Pai celestial dará o Espírito Santo àqueles que lho pedirem” (Lc 11.13).

Extraído de “Ablaze for God” (“Inflamados Para Deus”), de Wesley L. Duewel.

Fonte: Arauto Ano 25 nº 1 - Janeiro/Fevereiro 2007

Dez acusações contra a igreja moderna 11 de 15 - 7ª acusação 2ª parte- Paul Washer



Dez acusações contra a igreja moderna 10 de 15 - 7ª acusação 1ª parte- Paul Washer



Dez acusações contra a igreja moderna 9 de 15 - 6ª acusação 2ª parte- Paul Washer



Dez acusações contra a igreja moderna 8 de 15 - 6ª acusação 1ª parte- Paul Washer



sábado, 25 de julho de 2009

John Wesley: Homem de Devoção




É de conhecimento comum que John Wesley foi um dos grandes exemplos históricos de vida devocional. Um estudo mais detalhado, porém, revela que ele não era nenhum super-herói capaz de manter comunhão ininterrupta com Deus. Assim como nós, tinha altos e baixos. Cometeu vários erros e precisou fazer ajustes ao longo da jornada – o que nos oferece esperança!

A seguir, alguns aspectos importantes de suas práticas.

Disciplina

O fato de ter cometido erros não impediu Wesley de prosseguir. Ele estava convicto de ter achado o elemento essencial da vida cristã e estava determinado a conquistá-lo. Os registros regulares que constam em seu diário indicam que, por mais de 60 anos, ele observou fielmente as disciplinas espirituais. Convém mencionar que ele modificava, de vez em quando, a estrutura e o conteúdo. Estava disposto a fazer novos experimentos às vezes. Contudo, sua intenção básica de relacionar-se pessoalmente com Deus nunca vacilou.

Assim como nós, ele também teve momentos áridos. Um símbolo no diário, que indicava o fervor de suas orações, revela que muitas vezes suas orações haviam sido "frias" ou "indiferentes". Contudo, ele persistia na certeza de que novos períodos de ardor e regozijo viriam.

Tenho ouvido mais de uma pessoa dizer: "Eu realmente não estou conseguindo muito resultado com minhas devoções nesse momento e, por isso, vou suspendê-las por algum tempo até que o fervor retorne". Embora eu simpatize com tais pessoas, cheguei à conclusão de que tal atitude pode ser espiritualmente devastadora. Afinal, é nos períodos áridos que precisamos permanecer disciplinados e fiéis. Mesmo na ausência de emoções, devemos manter-nos confiantes de que Deus continua sua obra.

Na realidade, a verdadeira oração nasce do sentido da ausência de Deus e do quanto precisamos dele. Se desistirmos nos momentos de secura e fraqueza, não experimentaremos o gozo de encontrar o Deus que vem em nosso auxílio quando estamos em necessidade. E não conseguiremos determinar a causa da aridez. Isso nos leva a repetir os mesmos erros.

A disciplina torna-se, assim, o método pelo qual a vida espiritual é mantida nos bons e maus momentos.

Padrão objetivo

Para John Wesley, o padrão objetivo de espiritualidade genuína era a Bíblia. Apesar de ter lido centenas de livros sobre vários assuntos, ele continuamente referia-se a si mesmo como um homo unis libri (homem de um único livro). Durante 65 anos, utilizou-a como companheira diária em sua vida devocional.

Em primeiro lugar, ele lia a Bíblia em atitude de adoração. Isso significa que não o fazia com pressa, mas de modo reverente. Para garantir que seus momentos de estudo bíblico não fossem apressados, ele escolhia as primeiras horas da manhã e os momentos calmos da noite. Seu alvo principal era a qualidade e não a quantidade. Embora normalmente lesse um capítulo de cada vez, por vezes lia apenas alguns versos. Seu desejo era encontrar Deus e, quando o fazia, a quantidade de leitura não tinha grande importância.

Segundo, Wesley lia a Bíblia sistematicamente. Sua prática baseava-se em seguir um quadro de leituras diárias no Livro de Orações Comuns. Esse método permitia-lhe ler o Antigo Testamento uma vez por ano e o Novo Testamento várias vezes. Permitia-lhe, também, ler contextualmente e não casualmente. Wesley acreditava que o cristão deveria conhecer "todo o conselho de Deus".

Seria errado, portanto, supor que Wesley estava apenas à procura de experiência mediante a leitura devocional da Bíblia. Ele também queria conhecer a Palavra de Deus e não via qualquer dicotomia entre o estudo puramente científico da Bíblia e a leitura voltada ao enriquecimento espiritual. Toda nova informação ou descoberta alcançada constituía mais uma inspiração de Deus, e Wesley encarava-a como tal.

Amplitude

Wesley não limitava a leitura devocional à Bíblia, mas buscava inspiração significativa em uma vasta gama de materiais devocionais. Versado nos clássicos, desfrutava de fontes anglicanas, puritanas, moravianas e católico-romanas. Conseqüentemente, sua vida devocional possuía uma profundidade e variedade que uma única fonte seria incapaz de oferecer.

Assim, podemos inferir mais um princípio importante. Não podemos contentar-nos com uma só perspectiva nem com a "espiritualidade popular", que segue apenas o que está em voga no momento. Há necessidade de se descobrir a riqueza dos materiais devocionais provenientes de muitos séculos de história cristã. Somos sustentados por gigantes espirituais. Wesley nos desafia a libertarmo-nos de uma noção por demais limitada da vida devocional e a prestarmos atenção aos santos do passado, examinando tudo pelo padrão das Escrituras.

Oração

Para Wesley, o principal meio institucional da graça era a oração. Não é exagero dizer que ele vivia para orar e orava para viver. Wesley entendia a fé cristã como uma vida de relacionamento com Deus por intermédio de Jesus Cristo, e a oração era o dom de Deus para facilitar e enriquecer tal relacionamento. Para ele, a ausência de oração era a causa mais comum de aridez espiritual.

Como era a prática de Wesley nessa área tão vital?

Primeiramente, Wesley começava o dia em oração. Muito tem sido dito sobre seu hábito de levantar-se cedo, normalmente às 4h30 ou 5 horas. Embora seja verdade que ele tenha feito isso por mais de 50 anos, também é necessário lembrar que Wesley geralmente se deitava antes das 22 horas. O princípio não está tanto no horário específico em que se levantava, mas no fato de que dirigia seus primeiros pensamentos a Deus. Ao fixar a mente em Deus logo de manhã, ele sabia que estaria adquirindo a consciência da presença divina durante todo o dia.

Como é de se esperar, Wesley era por demais metódico para não estabelecer alguma ordem para as orações. Ele escolheu a prática comum de fixar um padrão semanal, segundo o qual cada dia era dedicado a um tópico em particular.

As orações escritas formavam a base de suas orações, mas, no seio destas, Wesley deixava espaço para as orações de improviso. As orações escritas forneciam o foco, e as orações extemporâneas possibilitavam a espontaneidade.

Muitos podem achar que orações escritas são muito formais, uma maneira estranha de comunicar-se com Deus. Porém, ao dar aconselhamento, tenho descoberto que os pensamentos soltos são um problema quase universal na oração. Muitas pessoas têm-se expressado assim: "Quando oro, minha mente vaga em todas as direções. O que posso fazer para manter a concentração?".

Como resposta, creio que seja útil o uso da combinação de oração escrita e oração espontânea. Quanto melhor for o foco na oração, menos problemas teremos com a mente desatenta. Mergulhando no espírito da oração escrita, refletindo sobre as palavras, podemos absorvê-las e depois elevá-las a Deus como expressão de nosso coração.

Wesley acreditava que, ao fazermos uso das orações escritas, enriqueceríamos nossa compreensão e a expressão da verdadeira oração. Descobrimos áreas da oração que não recebem a devida atenção. Somos auxiliados a orar num espírito de comunidade com a igreja universal.

Em segundo lugar, Wesley orava durante todo o dia. Seu diário mostra que ele treinara a mente para orar a cada hora. Essas orações geralmente eram breves, curtas frases de louvor. Constituíam o meio de apresentar os eventos de sua vida a Deus.

Se você já está achando que esse exemplo não é prático para quem se encontra em meio ao acelerado ritmo da vida moderna, lembre que Wesley também não era um recluso. Ele não vivia uma vida monástica ou isolada. Pelo contrário, mantinha horários de trabalho, escrita, pregação e viagem impressionantes até mesmo pelos padrões modernos. Evidentemente, ele não se retirava a cada hora para os exercícios devocionais, mas cultivava esse hábito internamente. Ele aprendeu a estar perfeitamente engajado nos assuntos da vida e, ao mesmo tempo, envolvido na oração a Deus.

Esse é o verdadeiro significado do conselho de Paulo sobre orar sem cessar. Wesley chamou a oração de "fôlego da vida espiritual" e sugeriu que, do mesmo modo como um indivíduo não pode parar de respirar, também não pode parar de orar.

Para alguns, a oração incessante desenvolve-se por lembretes. Eu conheço pessoas que colam um lembrete de oração ao telefone. Cada vez que toca, elas oram pela pessoa do outro lado da linha. Executivos agendam um encontro com Deus no meio do dia, trazendo, assim, a fé para bem dentro do trabalho. Outros colocam lembretes de oração por toda a casa. Ao encontrá-los, eles oram. Algumas pessoas fazem soar o alarme do relógio digital a cada hora e usam-no como uma chamada à oração. Cada uma dessas pessoas exemplifica a preocupação de Wesley em orar durante o dia.

Wesley também orava ao final do dia para fazer uma revisão das atividades e confessar os pecados cometidos. Ele tomava resoluções de mudanças e entregava-se ao cuidado e à proteção de Deus ao deitar-se. Wesley afirmava que, ao fazê-lo, conseguia dormir em paz quase todos os dias.

Precisamos aprender a arte de dormir corretamente. Com freqüência, percebo que estou trabalhando até a hora de ir para a cama. Por conseguinte, minha mente ainda está fervilhando quando me deito. No subconsciente, continuo trabalhando ao invés de descansar. No dia seguinte, acordo com uma sensação de fadiga ao invés de revigoramento. Descobri que não sou um caso único. Wesley nos lembra de que precisamos de tempo para nos acalmar e entregar o dia e a nossa pessoa a Deus. A oração em particular no final do dia é um meio de desanuviarmos a mente e dormirmos sem o peso dos problemas.

Extraído e adaptado de A Vida Devocional na Tradição Wesleyana, de Steve Harper, Imprensa Metodista. O livro completo pode ser baixado gratuitamente pelo site: http://www.metodistavilaisabel.org.br/artigosepublicacoes/ebooks2.asp

Dez acusações contra a igreja moderna 7 de 15 - 5ª acusação - Paul Washer

Dez acusações contra a igreja moderna 6 de 15 - 4ª acusação - Paul Washer

Modismo Gospel



Desabafo de um professor de teologia sobre "levitas", "apóstolos" e outros modismos:

Sou um professor de Teologia em crise. Não com minha fé ou com minhas convicções,mas com a dificuldade que eu e outros colegas enfrentamos nos últimos anos diante dos novos seminaristas enviados para as faculdades de teologia evangélica. Tenho trabalhado como Professor em Seminários Evangélicos presbiterianos, batistas, da Assembléia de Deus e interdenominacionais desde 1991 e, tristemente, observo que nunca houve safras tão fracas de vocacionados como nos últimos três anos.
No início de meu ministério docente, recordo-me que os alunos chegavam aos seminários bastante preparados biblicamente, com uma visão teológica razoavelmente ampla, com conhecimentos mínimos de história do cristianismo e com uma sede intelectual muito grande por penetrar no fascinante mundo da teologia cristã. Ultimamente, porém, aqueles que se matriculam em Seminários refletem a pobreza e mediocridade teológica que tomaram conta de nossas igrejas evangélicas.
Sempre pergunto aos calouros a respeito de suas convicções em relação ao chamado e à vocação. Pois outro dia, um calouro saiu-se com a brilhante resposta: "não passei em nenhum vestibular e comecei a sentir que Deus impedira meu acesso à universidade a fim de que eu me dedicasse ao ministério". Trata-se do mais típico caso de "certeza da vocação" adquirida na ignorância.
E, invariavelmente, esses são os alunos que mais transpiram preguiça intelectual.
A grande maioria dos novos vocacionados chega aos Seminários influenciada pelos modismos que grassam no mundo evangélico. Alguns se autodenominam "levitas". Outros, dizem que estão ali porque são vocacionados a serem "apóstolos".

Ultimamente qualquer pessoa que canta ou toca algum instrumento na igreja, se auto-denomina "levita". Tento fazê-los compreender que os levitas, na antiga aliança, não apenas cantavam e tocavam instrumentos no Templo, como também cuidavam da higiene e limpeza do altar dos sacrifícios (afinal, muito sangue era derramado várias vezes por dia), além de constituírem até mesmo uma espécie de "força policial" para manter a ordem nas celebrações. Porém, hoje em dia, para os "novos levitas" basta saber tocar três acordes e fazer algumas coreografias aeróbicas durante o louvor para se sentirem com autoridade até mesmo para mudar a ordem dos cultos.
Outros há, que se auto-intitulam "apóstolos". Dentro de alguns dias teremos também "anjos", "arcanjos", "querubins" e "serafins". No dia em que inventarem o ministério de "semi-deus" já não precisaremos mais sequer da Bíblia.
Nunca pensei que fosse escrever isso, pois as pessoas que me conhecem geralmente me chamam de "progressista". Entretanto, ultimamente, ando é muito conservador. Na verdade, "saudosista" ou "nostálgico" seriam expressões melhores.

Tenho saudades de um tempo em que havia um encadeamento lógico nos cultos evangélicos, em que os cânticos e hinos estavam distribuídos equilibradamente na ordem do culto.
Atualmente os chamados "momentos de louvor" mais se assemelham a show ensurdecedores ou de um sentimentalismo meloso.
Pior: sobrepujam em tempo e importância a centralidade da Palavra e da Ceia nas Igrejas Protestantes. Muitas pessoas vão à Igreja muito mais por causa do "louvor" do que para ouvir a Palavra que regenera, orienta e exige de nós obediência. Dias atrás, na semana da Páscoa comentei com um grupo de alunos a respeito da liturgia das "sete palavras da cruz" que seria celebrada em minha Igreja na 6a feira da paixão. Alguns manifestaram desejo de participar. Eu os avisei então que se tratava de uma liturgia que dura, em média, uma hora e meia, durante a qual não é cantado nenhum hino (pelo menos na tradição de minha Igreja - Anglicana), mas onde lemos as Escrituras, oramos e meditamos nas sete palavras pronunciadas por Cristo durante a crucificação. Ao saberem disso, um deles disse: "se não houver música, não há culto".
Creio que, em parte, isso é reflexo da cultura pop, da influência da "Geração MTV", incapaz de perceber que Deus pode ser encontrado também na contemplação, meditação e no silêncio. Percebo também que alguns colegas pastores de outras igrejas freqüentemente manifestam a sensação de sentirem-se tolhidos e pressionados pelos diversos grupos de louvor. O mercado gospel cresceu muito em nosso país e, além de enriquecer os "artistas" e insuflar seus egos, passou a determinar até mesmo a "identidade" das igrejas evangélicas. Houve tempo em que um presbiteriano ou um batista sabiam dar razão de suas crenças.
Atualmente, tudo parece estar se diluindo numa massa disforme. Trata-se da "xuxização" ("todo mundo batendo palma agora... todo mundo tá feliz ? tá feliz!") do mundo evangélico, liderada pelos "levitas" que aprisionam ideologicamente os ministros da Palavra. O apóstolo Paulo dizia que a Palavra não está aprisionada. Mas, em nossos dias, os ministros da Palavra, estão - cativos da cultura gospel.

Tenho a impressão de que isso tudo é, em parte, reflexo de um antigo problema: o relacionamento do mundo evangélico com a cultura chamada "secular". Amedrontados com as muitas opções que o "mundo" oferece, os pais preferem ter os filhos constantemente sob a mira dos olhos aos domingos, ainda que isso implique em modificar a identidade das Igrejas. E os pastores, reféns que são dos dízimos de onde retiram seus salários, rendem-se às conveniências, no estilo dos sacerdotes do Antigo Testamento.

Um aluno disse-me que, no dia em que os evangélicos tomarem o poder no Brasil acabarão com o carnaval, as "folias de rei", os cinemas, bares, danceterias etc. Assusta-me o fato de que o desenvolvimento dessa sub-cultura "gospel" torne o mundo evangélico tão guetizado que, se um dia, realmente os evangélicos tomarem o poder na sociedade, venham a desenvolver uma espécie de "Talibã evangélico". Tal como as estátuas do Buda no Afeganistão, o "Cristo Redentor" estará com os dias contados.

Esses jovens que passam o dia ouvindo rádios gospel e lendo textos de duvidosa qualidade teológica, de repente vêm nos Seminários uma grande oportunidade de ascensão profissional e buscam em massa os seminários. Nunca houve tanta afluência de jovens nos seminários como nos últimos anos.
Em um seminário em que trabalhei (de outra denominação), os colegas diziam que a Igreja, em breve teria problemas, pois o crescimento da Igreja não era proporcional ao número de jovens que todos os anos saíam dos Seminários como bacharéis em teologia, aptos para o exercício do ministério.
A preocupação dos colegas era: onde colocar todos esses novos pastores?
Na minha ingenuidade, sugeri que seria uma grande oportunidade missionária: enviá-los para iniciarem novas comunidades em zonas rurais e na periferia das cidades. Foi então que um colega, bastante sábio, retrucou: "Eles não querem. Recusam-se! Querem as Igrejas grandes, já formadas e estabelecidas, sem problemas financeiros".
De fato, percebi que alguns realmente se mostravam decepcionados ao saberem que teriam que começar seu ministério em um lugar pequeno, numa comunidade pobre, fazendo cultos nos lares, cantando às vezes "à capella" e sem o apoio dos amplificadores e mesas-de-som.
Na maioria dos Seminários hoje, os alunos sabem o nome de todas as bandas gospel, mas não sabem quem foi Wesley, Lutero ou Calvino.

Talvez até já tenham ouvido falar desses nomes, mas são para eles, como que personagens de um passado sem-importância e sobre o qual não vale a pena ler ou estudar.
Talvez por isso eu e outros colegas professores nos sintamos hoje em dia como que "falando para as paredes". Nem dá gosto mais preparar uma aula decente, pois na maioria das vezes temos sempre que "voltar aos rudimentos da fé" e dar aos vocacionados o leite que não recebem nas Igrejas. Várias vezes me vi tendo que mudar o rumo das aulas preparadas para falar de assuntos que antes discutíamos nas Escolas Dominicais. Não sei se isso acontece em todos os Seminários, mas em muitos lugares, o conteúdo e a profundidade dos temas discutidos pouco difere das aulas que ministrávamos na Escola Dominical para neófitos.
Sei que muitos que lerem esse desabafo, não concordarão em nada com o que eu disse. Mas não é a esses que me dirijo, e sim aos saudosistas como eu, nostálgicos de um tempo em que o cristianismo evangélico no Brasil era realmente referencial de uma religiosidade saudável, equilibrada e madura e em que a Palavra lida e proclamada valia muito mais que o último CD da moda.

De Londrina e Coordenador do Centro de Estudos Anglicanos (CEA).

Carlos Eduardo Calvani

Jesus Cristo Recrucificado



Pr. Walter Santos Baptista
"Cristo enviou-me, não para batizar, mas para evangelizar; não com sabedoria de palavras, para que a cruz de Cristo não se faça vã (1Coríntios 1.17). "... de novo estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus..." (Hb 6b);
Em 1959, o eminente pregador e escritor canadense Pr. A. W. Tozer declarou que "A qualidade do cristianismo evangélico vem piorando ano após ano". Isso foi dito há quarenta e três anos acerca do cenário eclesiástico norte-americano. Lamentavelmente, verificamos que chegou por aqui também. Esqueceram muitos líderes de igrejas chamadas evangélicas das balizas da Reforma do Século 16: Sola Gratia, Sola Fide, Sola Scriptura; Solus Christus, ou seja "Só a Graça de Deus; Só a Fé Pessoal; Só a Escritura Sagrada como regra de Fé e Prática; Só Jesus Cristo como Salvador", tão bem expressos esses estandartes na palavra de ordem do CongressoBíblico-doutrinário do Amazonas: CRISTO NO CENTRO! BÍBLIA NO PÚLPITO HERESIAS DE FORA!

Em outra de suas inúmeras obras declarou que

"Jesus Cristo não tem hoje quase nenhuma autoridade entre os grupos que se chamam pelo Seu nome. Não estou me referindo aqui aos católico-romanos, nem aos liberais, nem sequer às seitas quase-cristãs. Refiro-me às igrejas protestantes em geral e incluo aquelas que protestam mais alto que não se acham num declive espiritual, afastando-se de nosso Senhor e seus apóstolos, a saber, os 'evangélicos'"

Isso é recrucificar Jesus Cristo! É colocá-lo meio como rainha da Inglaterra que reina, mas não governa. A cruz do Calvário foi substituída pela Menorah, o candelabro de sete braços do judaísmo; o "cântico novo" de Apocalipse foi trocado pelas velhas danças da cultura hebréia; e a obra definitiva de Cristo na cruz e na ressurreição tem que receber o acréscimo da quebra de maldições já perdoadas e desfeitas pelo sangue de Jesus Cristo que "nos purifica de todo o pecado".

Não há justificativa para movimentos que propondo a melhoria espiritual e o crescimento das igrejas venham fraturar, separar, dividir o povo de Deus. Há verdadeiras guerras civis no seio das Convenções, das denominações pela falta de sensatez, de equilíbrio e de centralidade da Bíblia no púlpito.

É simplismo demais atribuir a responsabilidade ao espírito do alcoolismo, do adultério, da mentira, porque isso leva a negar a responsabilidade individual pelo pecado e a necessidade de arrependimento, confissão e fé, razão porque o Pr. Ricardo GONDIM afirmou, o que, aliás, já é senso comum: "A igreja evangélica brasileira mostra-se muito vulnerável a falsas doutrinas". Mas a coisa é tão antiga... Irineu, um dos teólogos da Igreja Antiga já asseverava que "O erro nunca vem com todas as suas deformidades, pelo contrário, parece até mais verdadeiro que a verdade".

Uma análise da vida da Igreja de Jesus Cristo nos aponta ser ela uma instituição divina composta, no entanto, de seres humanos. Muito humanos, aliás: fracos, débeis, disfuncionais, e, por vezes, com líderes sem muito discernimento. São líderes, por vezes, cheios de rivalidades, narcisistas, invejosos, vaidosos, plenos de delírio de grandeza, que identificam o seu próprio discurso com o discurso de Deus e a megalomania pessoal com a grandeza do reino de Deus.

O parâmetro e critério para a interpretação da Palavra de Deus deixou de ser Jesus Cristo porque o Filho de Deus está sendo recrucificado. O que agora temos é uma influência do gnosticismo, velho conhecido da Igreja Apostólica, práticas judaizantes, que tanta celeuma causaram na Igreja dos primeiros dias e do baixo espiritismo fazendo sincretismo com segmentos para-eclesiásticos aceitos pela mídia e pela opinião popular como "evangélicos".

A dicotomia entre os que são chamados "leigos" e pastores não condiz com o princípio neotestamentário do Sacerdócio dos Crentes, mas tem aspecto, cheiro e tempero de romanismo. Quando um "fundador" de "igreja" faz questão de ser conhecido como "apóstolo" ou "bispo-primaz", e a igreja por ele fundada se torna dependente de sua personalidade, tudo está num caminho perigosamente equivocado e desorientado.

Em Salvador, em uma igreja hoje fora da Convenção Batista Brasileira, o pastor que faz questão do título de "bispo" (desconhecendo, certamente, que bispo, presbítero e pastor são funções específicas do mesmo vocacionado ), tem usado kipah e talit (solidéu e xale de orações) na celebração da Ceia Memorial. Além disso, a sua igreja utiliza grupos de danças judaicas em determinados cultos.

Na verdade, desejamos ardentemente compreender o cenário nas igrejas evangélicas. Verificamos, no entanto, e para nosso desprazer, que o evangélico alvo de alvoroçar o mundo, conforme a declaração de Atos 17.6b ("Estes que têm alvoroçado o mundo, chegaram também aqui") está redirecionado para "Estes que têm alvoroçado a igreja, chegaram também aqui".

ADORAÇÃO

Há alguns anos, procurava-se uma igreja pela sua denominação, nome e doutrina. Mudou tudo, a motivação mudou. Já não se procura uma igreja por rótulo denominacional. Doutrina, nem falar... A Convenção Batista Brasileira, buscando preservar a identidade das igrejas filiadas, recomenda colocar sua sigla nas placas e boletins.

Busca-se a igreja onde é costume cantar hinetos, levantar as mãos ou bater palmas. São formas e gestos litúrgicos menores que, no entanto, têm dividido igrejas. Possivelmente, o que se busca mesmo seja a experiência de envolvimento, cultos participativos, música contemporânea, opções de horário, ou seja, há uma procura por função (estilo do culto) e forma (tipo de ministração).

O problema é muito maior, no entanto. Nossos arraiais têm sido infestado por um clima de showmício, de um Domingão do Faustão, por isso que o culto é programado (programado???) o para agradar o espectador/ouvinte. Ofereceram-me a presença de um artista supostamente convertido ao evangelho, mas a igreja teria que comprar um certo número de CDs e pagar um excelente cachê pela sua presença. E se a cada domingo puder apresentar uma nova atração no cartaz, a casa cheia está garantida. É a "Síndrome da Segunda Tentação": a de se tornar um espetáculo e encher os olhos da multidão sedenta de novidades.

O modesto pastor que serve em silêncio aprofundando vidas, não é lembrado (nem para oração silenciosa nas assembléias da Convenção Estadual...). Quer ser notado? Invista no marketing pessoal (voltaremos a falar sobre isso). Faça bastante barulho, crie um espetáculo; use cores, bandeiras, encha os olhos do povo e seus consumidores (desculpe, queria dizer adoradores) ficarão satisfeitos: está garantida a volta no próximo domingo.

Em 1887, há pouco mais de cem anos (observem a data!) Spurgeon dizia que

"O fato é que muitos gostariam de unir igreja e palco, baralho e oração, danças e ordenanças. Se nos encontramos incapazes de frear essa enxurrada, podemos, ao menos, prevenir os homens quanto à sua existência e suplicar que fujam dela. Quando a antiga fé desaparece e o entusiasmo pelo evangelho é extinto, não é surpresa que as pessoas busquem outras coisas que lhes tragam satisfação. Na falta de pão, alimentam-se de cinzas; rejeitando o caminho do Senhor, seguem avidamente pelo caminho da bobagem".

É nesse ponto que meditamos acerca de critérios básicos para medição do culto que é prestado a Deus. Sem dúvida, o melhor aferidor é a própria Escritura Sagrada. Em Carta dirigida a uma problemática igreja, Paulo destaca quatro critérios:

¨ que o culto não ofenda nem escandalize (1Co 10.32);
¨ que tudo seja feito para a glória de Deus (14.6, 7)
¨ que tudo seja feito para edificação (1Co 14.26);
¨ que tudo seja feito com decência e ordem (1Co 14.40).

Mas tudo está tão diferente... Sentimos desconforto com o silêncio, e até consideramos uma reunião "morta" se não há barulho. É verdade que nem todo silêncio é espiritual. Há crentes que ficam calado porque não sabem ou não têm mesmo o que dizer.

Infelizmente, a "Síndrome de Ezequiel" está vezes tantas presente. É a vinda ao culto pela diversão implícita, como bem expressou o Senhor ao profeta Ezequiel:

"O Senhor dirigiu-me a palavra e disse-me: 'Ezequiel, o teu povo anda a falar de ti. Quando se encontram junto aos muros da cidade ou às portas das casas, dizem entre si: 'Vamos ouvir o que o Senhor tem para nos dizer!' O meu povo aglomera-se à tua volta em grande número, para ouvir a tua mensagem, mas não fazem o que tu lhes dizes. Dizem palavras muito bonitas, mas o seu coração é profundamente interesseiro. Para eles, não és mais do que um cantor de cantigas agradáveis, que tem uma bela voz e toca muito bem. Ouvem as tuas palavras mas não obedecem a nada do que dizes" (Ez 33.30-32).

Pois é; Deus nos convoca para sermos adoradores em espírito e em verdade, porém, em muitos casos, tem se feito do culto uma fonte de diversão e entretenimento.

O culto celebra Jesus Cristo como um decisivo acontecimento, Cristo como kairos, ponto de mudança, determinante na História. No mundo secularizado em que vivemos, o culto é há de ser um antídoto ao crescente consumismo. Triste é quando ele mesmo se torna um fator de consumo, um subproduto de certas chamadas igrejas.

Mas o culto não celebra a igreja, mas, sim, a Cristo. Há quem afirme que o primeiro culto cristão foi o dos pastores nos campos de Belém (Lc 2.8-14). Creio que ocorreu bem anteriormente quando Maria o rendeu a Deus por Seu Filho, Jesus , o Messias e expresso no chamado "Cântico de Maria" em Lucas 1.46-55. Daí, o princípio número um do culto cristão: ele celebra Cristo, e só a Cristo: Solus Christus, estandarte da Reforma!

E se Jesus Cristo é o centro da celebração cristã, só pessoas verdadeiramente salvas, purificadas pelo sangue de Cristo podem adorar em espírito e em verdade. Aí, a compreensão do nome de Deus para ter sentido em toda a sua dimensão:

¨ ser Deus o El Elyon, e Jesus o Filho de El Elyon, do Deus Altíssimo (Lc 1.32);
¨ ser Deus o Javé Jiré, o Deus do Moriá, da nova visão, da revelação adequada e plena (Gn 22.1-19; Jó 42.5);
¨ ser Deus o El Shaddai, o Deus das mais poderosas realizações (Sl 89.13);
¨ ser o Deus o "escudo de tua vida" como foi o Magen Avraham, o "escudo de Abraão" e igualmente nosso protetor (Gn 15.1);
¨ ser El Berith, o Deus da aliança feita pessoalmente conosco no sangue de Jesus (Gn 17.7);
¨ o Deus pessoal como foi o "Deus de Abraão, Deus de Isaque e Deus de Jacó", e é igualmente o Deus de Livingstone, de Marcelo, de Lídice, de João, de Nilda, de Jorge Max, de Norton e de Walter Baptista.

Na real adoração, a presença de Deus é perfeitamente sentida, Seu perdão é apresentado e oferecido, Seus objetivos e horizontes para a vida são discernidos e seu poder é altamente demonstrado nas mudanças operadas, pois tudo isso estava presente por ocasião do derramamento do Espírito na Festa de Pentecostes (At 2.11).

Mas Cristo tem sido recrucificado vezes tantas... É verdade que há uma renovação litúrgica ocorrendo nas igrejas com novas perspectivas, novas formas e novos métodos. Mas quanto disso vem das Escrituras Sagradas e quanto vem do desejo pessoal, do narcisismo e vaidade de que anteriormente falamos?

MARKETING

"No início, a igreja era um grupo de homens centrados no Cristo Vivo.
Então, a igreja chegou à Grécia e tornou-se uma filosofia.
Depois, chegou a Roma e tornou-se uma instituição.
Em seguida, à Europa e tornou-se uma cultura.
E, finalmente, chegou à América e tornou-se um negócio".

Essas palavras foram ditas pelo capelão do Senado norte-americano, Pr. Richard Halverson. No Brasil, então, virou um excelente negócio, haja vista que igrejas são abertas como se abrem lojas de 1,99. Em Salvador há uma rua que parece a Zona Franca desta linda e carinhosa cidade de Manaus, ou a rua da Alfândega no Rio de Janeiro, ou a rua Direita do Rosário no Recife: várias igrejas, algumas barateando cada vez mais o seu produto.

O mercado evangélico nem é mais um promissor mercado no futuro. Gravadoras de música secular abriram segmentos com selo próprio para o milionário mercado da música evangélica. As lojas de disco e os supermercados têm estantes para a música dita gospel, (terminologia, aliás, errada segundo os padrões da História da Música. O apreciado Rolando de Nassau tenha a palavra sobre esse tema). Vendem-se produtos destinados ao consumidor evangélico, inclusive óleo para unção de diversas marcas. O mercado do turismo, esse, então, descobriu o filão evangélico.

Israel de antes das guerras intestinas foi vendido como objeto de consumo a piedosos irmãos que enviaram até mesmo pedidos de oração para serem queimados numa muito anunciada fogueira santa no monte Sinai, que (sem trocadilho), diga-se de passagem, fica no Egito. O produto culto é vendido por certas igrejas, e quanto mais chamativo mais sucesso se obtém: Arca Santa da Aliança, Terra Santa, Areia Santa, Sabão Santo, Água Santa do Jordão, Campanha da Vassoura, Carteira Profissional do Desempregado, 300 Filhos da Luz, Sessão Forte de Descarrego, Corrente de Naamã, Pai das Luzes, Bispo dos Desacreditados são alguns dos títulos e subprodutos de venda desses "cultos". A propósito, foi-me explicado que a Campanha de Naamã leva a fila de consumidores (quero dizer, participantes dos "culto") pelo batistério onde supostamente teria sido colocada a mesma água do rio Jordão onde Naamã foi curado.

E porque vender é uma arte, livro publicado em 1993 ressalta premissas para o marketing (entenda-se venda) na igreja de hoje:
¨ A igreja é um negócio;
¨ O marketing é essencial para um negócio funcionar com êxito;
Isso significa que sendo a igreja um negócio, deve ser dirigida com a mesma habilidade que caracteriza qualquer empreendimento. Nossa meta como igreja, tal como qualquer negócio secular, é obter êxito. Meu Pai, recrucificaram o meu Salvador!!!

Destaca, ainda, o autor os quatro "P" de nossas atividades: Produto, Ponto de Vendas, promoção e Preço. Não é de estranhar que determinada prestadora de serviço religioso tenha um departamento especial para criar campanhas como a Terapia do Amor, a Fogueira Santa de Israel e muitas outras. Esse é o Produto. O bem intencionado livro ensina que o produto que temos chama-se relacionamento com Cristo e com o semelhante.

O Ponto de Vendas é onde se está. Colocar o produto no lugar certo para atender o público certo. Não é prova de habilidade oferecer ao "cliente/consumidor/cultuante" opções de horários para assistir ao culto? Prefere o das 7h, das 10h. das 13h, das 15h ou das 19h?

A muito bem elaborada Promoção vende igualmente bem o Produto no momento apropriado para o cliente. É sabido que na indústria e no comércio, a determinação do preço é algo complexo. Nele precisam estar embutidos a matéria prima, os custos de produção, a distribuição, margem de lucro para remunerar o tempo e o esforço dos empregados. Sugere o livro que o Preço em termos de igreja é o Compromisso, ou em termos comerciais a Fidelização.

Há, no entanto, outro tipo de marketing que é o pessoal. Nesse campo, desenvolve-se um bem montado culto à personalidade. Políticos, artistas, desportistas, cantores, e, hodiernamente, pregadores e cantores evangélicos têm desenvolvido um elaborado e determinado marketing pessoal nunca visto, com tudo a que têm direito para os elevar acima do povo que os sustenta.

São "apóstolos, bispos, profetas e profetisas", que se esquecem da exclamação do poeta de Israel: "Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao teu nome dá glória" (Sl 115.1), e a do apóstolo Paulo, "Longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo" (Gl 6.14).

É por essas e outras razões que o Pr. Ricardo GONDIM rejeita esses títulos e o faz com finíssima ironia em artigo publicado na revista Ultimato. Para ilustrar melhor, conta uma conversa que teria acontecido numa reunião de pastores onde reinava o que ele chama de "volúpia em pastores se promoverem a bispos e apóstolos". Pergunta um pastor a outro: "Você já é apóstolo?" O outro teria respondido:: "Não, e nem quero. Meu desejo agora é ser semideus. Apóstolo está virando arroz de festa, e meu ministério é tão especial que somente o título de semideus cabe a mim".
Até se faz hermenêutica com esse marketing pessoal: "se no livro do Apocalipse o anjo da igreja é um pastor, logo, aquele que desenvolve um ministério apostólico seria um 'arcanjo' ".

É verdade; o povo de Deus necessita e pede líderes fortes, comprometidos e dotados da inspiração e liderança do Espírito Santo. No entanto, grupos sectários, facções, desvios de doutrina alicerçam-se basicamente em personalidades fortes, insinuantes e manipuladoras.

Quando isso ocorre, Jesus Cristo é outra vez crucificado, e Ele não merece isso! GONDIM exorta dizendo que "Não fomos chamados para ter ministérios bem-sucedidos, mas para continuar o ministério de Jesus".

MARCHA PARA JESUS

O movimento intitulado Marcha para Jesus teve início na Inglaterra nos ano '80. Foi uma iniciativa de igrejas locais que levaram para as ruas o que experimentavam em sua vivência diária, visto que era um movimento de intercessão. Músicas apropriadas para o ar livre foram escritas especialmente para as primeiras passeatas, tendo Graham Kendrick, conhecido compositor britânico, como autor.

Em maio de 1987, a Comunidade Ichtus de Londres, a organização missionária Jovens com uma Missão e a Equipe Pioneira se reuniram para organizar uma passeata de louvor e oração pelas ruas londrinas, que reuniu cerca de 15 mil pessoas. No ano seguinte, já eram 55 mil. Hoje, o movimento ultrapassa 130 países, reúne milhões de participantes e ocorre no sábado antes da comemoração do Dia de Pentecostes, de acordo com o calendário litúrgico.

Segundo os organizadores, essa celebração mundial significa a derrubada das barreiras denominacionais, tomando como base as palavras de Jesus em João 13.35: "Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros". Significa, outrossim, que é como uma reunião de família, em que às crianças, por exemplo, nunca é ordenado que se sentem e fiquem quietas. Ao contrário, as crianças testemunham a realidade de uma igreja unida em torno de um propósito: a unidade dos crentes nas ruas da cidade.

A Marcha para Jesus chegou ao Brasil há um pouco mais de dez anos. Tem sido patrocinada por uma das "igrejas" de fortíssimo marketing institucional (andou até há pouco tempo em manchetes altamente negativas nas revistas de comentário, jornais e televisões). Não há razões lógicas nem teológicas para se fazer o que tem acontecido, a não ser mostrar o potencial de arregimentação de grupos supostamente evangélicos.

No Brasil, virou carnaval fora de época. Realmente, está mais para carnaval do que para desfile do Dia da Bíblia (lembram como era?). A Bahia tem uma antiga tradição das micaretas, um carnaval fora de época realizado em cidades do interior. Em Salvador e outras cidades deste imenso país, a Marcha para Jesus é a micareta dos evangélicos, pois assim os jornais locais têm tratado do assunto. A Tarde, o diário de maior circulação na capital baiana, falou até em "samba no pé" dos crentes. Aquele mesmo pé que deve ser guardado quando se vai à casa de Deus (Ec 5.1).

Por conta da ideologia neocarismática, a versão brasileira da Marcha para Jesus, que tem sido chamada de "triunfalismo", tomou outras direções: está aliada à corrente intitulada "Batalha Espiritual", que busca reviver a primitiva teologia semita dos deuses nacionais, dos espíritos territoriais. Lembremos que na primeira fase da teologia, os deuses não atravessavam fronteiras.
Moloque, o deus de Amon dominava aquela terra; Dagon, o deus filisteu, não saía das fronteiras da Filístia; o mesmo acontecendo com os deuses de Canaã, a Terra Prometida. Essa é a razão porque, para demonstrar o Deus supranacional Que Se revelou aos hebreus, encontramos as palavras de perfeita e absoluta segurança ao povo israelita: "Todo o lugar que pisar a planta do vosso pé será vosso... O Senhor vosso Deus porá sobre toda a terra que pisardes o terror e o temor" (Dt 11.24, 25). Tudo muito físico, muito concreto de acordo com a mentalidade hebréia.

Assim, a Marcha para Jesus objetiva conquistar a cidade aos seus príncipes, demônios, deuses locais e o faz pisando o solo como há 3.000 anos fizeram os hebreus em suas guerras de conquista. Em nosso país, cenas esdrúxulas têm sido presenciadas e criticadas com "apóstolos", "bispos", pastores, acólitos e coroinhas em plena euforia provocando surpresa, e espanto na mídia e nos descrentes em geral que não podiam imaginar que crente era tão bom de samba, pagode e axé...

A propósito, as igrejas batistas reunidas na 78a Assembléia da Convenção Batista Baiana discutiram o assunto e aprovou o seguinte parecer:

POSICIONAMENTO DA CBBa SOBRE ACONTECIMENTOS NO EVENTO 'MARCHA P/ JESUS", CONFORME DIVULGADO PELA IMPRENSA SECULAR, ISTO É, JORNAL "A TARDE", EDIÇÃO DE 3/6/2001 E "CORREIO DA BAHIA" DA MESMA DATA.
Diante da veiculação via jornais A TARDE e CORREIO DA BAHIA dos eventos concorrentes de "Marcha para Jesus" e considerando:

a) Os excessos comportamentais de pessoas identificadas como evangélicas;
b) A repercussão negativa dos fatos do referido evento;
c) A não promoção do REINO, e sim de segmentos pseudo-evangélicos;
d) A banalização do Evangelho,
Propomos: que a Convenção Batista Baiana emita e divulgue via meios de comunicação de massa (jornais, cartas e televisão) nota informando sua posição face aos acontecimentos contendo o seguinte texto:

"A Convenção Batista Baiana reitera seus princípios de autenticidade e autoridade das Escrituras, como norma de fé e conduta, bem como de liberdade pessoal de cada indivíduo na sua expressão religiosa. No entanto, não reconhece e nem comunga com os excessos comportamentais e êxtases cometidos em nome de Jesus. Reconhece a alegria como algo espiritual e a necessidade de sua extravasação em forma de expressões corporais, desde que não se valha de desvarios, euforias e caricaturas de quaisquer espécie destoantes com nossos princípios".

Ia esquecendo, a próxima Marcha para Jesus será em 7 de junho de 2003.

PROSPERIDADE

É verdade: os patriarcas eram homens prósperos. Alguns fariam inveja aos senhores feudais e aos latifundiários de hoje em dia. Fariam, sem dúvida, a festa dos integrantes do MST. A respeito do Pai dos crentes, diz a Bíblia que "Era Abraão já idoso e avançado em anos, e o Senhor em tudo o havia abençoado... Deu-lhe ovelhas e bois, e prata e ouro, e servos e servas, e camelos e jumentos" (Gn 24.1, 35; cf. Gn 12.16; 13.2; 20.14).

Seu filho Isaque não ficou atrás, pois "Engrandeceu-se o homem, e foi-se enriquecendo até que se tornou muito poderoso. Possuía ovelhas e bois, e muita gente de serviço; de modo que os filisteus o invejavam" (Gn 26.13, 14). Relata a Palavra de Deus que o mesmo aconteceu com Jacó (Gn 30.43; 32.13-15), com José, seu filho (Gn 41.40-44), e a história de Jó o coloca como "o homem mais rico de todo o oriente" (Jó 1.3b BSPC).

Porém entendamos: há um problema com a Teologia da Prosperidade. Se é tão contestada, debatida e objeto de mal-estar, há um problema. Entendamos ainda: o enorme mal-estar da Teologia da Prosperidade não é a prosperidade, mas a teologia em si. Essa onda doutrinária é igualmente conhecida como Movimento de Fé e não deixa de ser um "movimento do potencial humano", pois está mais para Lair Ribeiro que para o Novo Testamento.

Vamos elaborar: na teologia primitiva de Israel, sinal da graça de Deus era ser rico, ter filhos e gozar de boa saúde, longa vida. O contrário disso era miséria espiritual. A maior injúria para uma mulher hebréia era ser estéril. A exclamação de Isabel, mãe de João foi "Assim me fez o Senhor, nos dias em que se dignou retirar o meu opróbrio perante os homens" (Lc 1.25; cf. 1Sm 2.5b).

O próprio livro de Jó é um protesto veemente contra a teologia da retribuição nesta vida proclamada por esse primitivo entendimento da graça divina e que se representa hoje pela Teologia da Prosperidade. Não havia o sentido neotestamentário de vida após esta vida, de bem-aventurança e maldição eternas, céu e inferno. A crença era em um mundo de sombras, o sheol, a habitação de todos os mortos sem distinção de vida justa e perfeita diante de Deus, ou injusta e pecaminosa. Toda retribuição (bem-aventurança ou punição) seria na terra, pregavam os antigos teólogos. Jó com uma visão mais ampla e clara da revelação divina se insurge contra a teologia da retribuição terrena. No entanto, o meio-dia da revelação, a clareza e brilho da Nova Aliança, vai trazer uma nova luz sobre o assunto.

A semente da cobiça que se instala no coração de quem busca a prosperidade pela prosperidade produz amargos frutos: ansiedade, inveja e ganância. E a Palavra Santa alerta sobre o assunto:
"Não corras atrás das riquezas; evita por nisso a tua ambição" (Pv 23.4); bem como, "O homem fiel será cumulado de bênçãos, mas o que se apressa a enriquecer não ficará sem castigo" (Pv 28.20; cf. Mt 6.19, 20; 19.21). Paulo escreve a Timóteo e faz uma seriíssima recomendação: "Os que querem ficar ricos caem em tentação e em laço" (1Tm 6.9a). Até Millor Fernandes dá a sua contribuição para o debate e afirma, "O ideal é ter sem que o ter te tenha". Afinal, que é mais importante: ter ou ser?

Por outro lado, temos a questão da saúde, ou melhor, da enfermidade. O sofrimento é um problema na cabeça de alguns crentes. Não compreendem como pode a declaração de Isaías 53.4, 5 não se tornar realidade física, quando ensina que "Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si... e pelas suas pisaduras fomos sarados".

É uma questão de compreender que o profeta não está se referindo a males biológicos, físicos, senão a graves problemas espirituais. O mesmo verbo usado para dizer que "fomos sarados" pelas suas feridas (rapha) é utilizado em Jeremias 3.22 para afirmar "eu curarei as vossas rebeliões". Não entendem que existe o sofrimento pedagógico, aquele que nos ensina preciosas lições de paciência, de esperar no Senhor, de perseverança, de constância, de fé. Em Romanos 5.3-5, Paulo declara, "Também nos gloriamos nas tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança; e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança. Ora, a esperança não traz confusão, porque o amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado".

E Paulo narra seu duro aprendizado e conseqüente confiança em Deus ao dizer que "Era como se tivesse condenado à morte. Isto aconteceu para eu aprender a não confiar em mim próprio, mas sim em Deus..." (2Co 1.9). Sim, a dor, a tribulação, a enfermidade, o sofrimento podem ser plena e perfeitamente didáticos, ou seria o apóstolo Paulo um iludido ou, pior, um masoquista ao dizer, "Por isso, não perco a coragem. E ainda que o meu corpo se desgaste, o meu interior renova-se de dia para dia. As aflições do momento presente são leves, comparadas com a grande e eterna glória, que elas me preparam" (2Co 4.16, 17; cf. Rm 8.18, 22, 23, 28, 31-39).

CONCLUSÃO

Parece existir uma devastadora falta de discernimento. A Bíblia assegura que só o espiritual discerne o que é do Espírito (1Co 2.15); diz que há quem não tenha discernimento quanto ao Corpo do Senhor, que é Sua Igreja, escandalizando os mais fracos, separando os irmãos, machucando a comunhão (1Co 11.29), e se não há conhecimento nem percepção, as "coisas excelentes" de Filipenses 1.10 não serão discernidas.

O carisma do discernimento (dom espiritual, portanto) levará pastores e igrejas a se certificarem de que se aparece alguma coisa nova na igreja (doutrina, revelação) não pode ser verdadeira, e se é verdadeira não há de ser novidade. Realmente, o ser arrastado por "ventos de doutrina", novidades, modismos e práticas estranhas tem razão de ser:

¨ Imaturidade espiritual. Depois do mingauzinho, ou, como se diz no Nordeste, do engrossante dos primeiros dias de vida cristã, é o momento de comida mais encorpada e temperada. Falta de experiência no início da vida cristã é admissível no novo crente. O crente antigo tem leis espirituais pelas quais viver, "crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo" (2Pe 3.18a; cf. Ef 4.15), e para isso, temos a Palavra Santa que é "inspirada por Deus e serve para ensinar, convencer, corrigir e educar, segundo a vontade de Deus, a fim de que quem serve a Deus seja perfeito e esteja pronto para fazer o bem" (2Tm 3.16, 17).

¨ Engodo espiritual. Há indivíduos que têm muita habilidade para convencer até antigos crentes. Paulo advertiu os irmãos da Galácia acerca dessas pessoas no meio das suas igrejas, e alerta, "O interesse que essa gente mostra por vocês não é bem-intencionado" (Gl 4.17a). Nem sempre o uso de linguagem evangélica é sinal de correção doutrinária, de ortodoxia. Nem sempre a palavra salvação tem o mesmo significado em diferentes grupos; nem sempre o nome de Jesus tem o mesmo quilate.

¨ O Orgulho intelectual é fator de cegueira, como exortou Paulo em 2Coríntios 11.3, 4a: "Tenho medo que se corrompam no entendimento e abandonem a simplicidade e a pureza da fé em Cristo, assim como Eva foi seduzida pela astúcia da serpente. Pois são capazes de aceitar alguém que vos vá falar de um Jesus diferente daquele que eu vos anunciei".

Que fazer, então?

¨ Que tal ser como os irmãos de Beréia? O relato diz que tudo o que Paulo ensinava era cotejado com a Escritura para ver se era do modo que ele dizia.
¨ Cuidado com revelações fora da Palavra, com descobertas "exclusivas": "O Senhor me disse...",
"Deus me falou...", Prevendo isso, o Espírito Santo instruiu Paulo a escrever, "se alguém vos uma Boa Nova [um evangelho] diferente daquela que receberam, seja maldito!" (Gl 1.9b).

¨ Estude a doutrina bíblica. Familiarize-se com a doutrina de Deus, do Ser Humano, do Pecado, de Jesus Cristo, da Salvação, do Espírito Santo, do Destino Final.
¨ Afaste-se de grupos que criam dúvidas e perturbação e rejeite tudo o que não vem da Palavra de Deus (cf. 1Tm 4.7, 13).
Discernimento é o que este tempo requer. Palavrinha boa... "Discernir" vem de uma raiz grega (krino) que tem o significado essencial de "passar pela peneira", ou seja "fazer separação". Por esse motivo, "discernir" é o mesmo que "julgar" ou "decidir". 1Tessalonicenses 5.21 traz uma lei espiritual para o crente ao exortar, "Examinai tudo. Retende o bem".

Tem faltado julgamento em verificar se determinado obreiro ou comunidade leva a sério seu compromisso com a boa doutrina ou se é useiro e vezeiro em aceitar as novas ondas doutrinárias e práticas estranhas. Tem faltado julgamento em distinguir se uma igreja que ostenta o título de Evangélica é na verdade uma comunidade digna desse nome ou apenas aproveita a nobreza e seriedade dessa nomenclatura.

Pois é; quando surgir novidade na praça, faça como os irmãos bereanos e use o critério do VER-JULGAR-AGIR.
É por esse motivo que eu creio em pregar e ensinar (Mt 28.19,20); creio no aperfeiçoamento dos santos e na edificação do corpo de Cristo (Ef 4.12); creio em cultuar em espírito e em verdade (Jo 4.24); creio no partir do pão e nas orações (At 2.42); creio na cruz do Calvário (Gl 6.14). Creio em sermos astros no mundo retendo a palavra da vida (Fp 2.15b, 16a), "sal da terra" e "luz do mundo".

Mas a próxima crucificação não há de ser outra vez a de Jesus Cristo, é a minha. Ou como humildemente exclamou Paulo, "Estou crucificado com Cristo..." (Gl 2.20): sou eu crucificado, o crente crucificado. No centro de minha devoção, do meu coração, de meu culto está o Senhor Jesus Cristo, diante de Quem eu me curvo em reverência e louvor para cumprir unicamente Sua vontade.

[Conferência proferida no Congresso Bíblico-doutrinário patrocinado pela Convenção Batista do Amazonas, 27 a 29 de novembro de 2002]

Walter Santos Baptista, Pastor da Igreja Batista Sião em Salvador, BA
E-Mail: wsbaptista@uol.com.br

As 95 Teses de Martinho Lutero




As 95 Teses afixadas por Martinho Lutero na Abadia de Wittenberg a 31 de outubro de 1517, fundamentalmente "Contra o Comércio das Indulgências":

Movido pelo amor e pelo empenho em prol do esclarecimento da verdade, discutir-se-á em Wittemberg, sob a presidência do Rev. Padre Martinho Lutero, o que segue. Aqueles que não puderem estar presentes para tratarem o assunto verbalmente conosco, o poderão fazer por escrito.
Em nome de nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.

1ª Tese
Dizendo nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo: Arrependei-vos... etc., certamente quer que toda a vida dos seus crentes na terra seja contínuo e ininterrupto arrependimento.

2ª Tese
E esta expressão não pode e não deve ser interpretada como referindo-se ao sacramento da penitência, isto é, à confissão e satisfação, a cargo dos sacerdotes.

3ª Tese
Todavia não quer que apenas se entenda o arrependimento interno; o arrependimento interno nem mesmo é arrependimento quando não produz toda sorte de mortificação da carne.

4ª Tese
Assim sendo, o arrependimento e o pesar, isto é, a verdadeira penitência, perdura enquanto o homem se desagradar de si mesmo, a saber, até à entrada para a vida eterna.

5ª Tese
O papa não quer e não pode dispensar de outras penas além das que impôs ao seu alvitre ou nem acordo com os cânones, que são estatutos papais.

6ª Tese
O papa não pode perdoar dívida, senão declarar e confirmar aquilo que já foi perdoado por Deus, ou então o faz nos casos que lhe foram reservados. Nestes casos, se desprezados, a dívida em absoluto deixaria de ser anulada ou perdoada.

7ª Tese
Deus a ninguém perdoa a dívida sem que ao mesmo tempo o subordine, em sincera humildade, ao ministro, seu substituto.

8ª Tese
Cânones poenitentiales, que são as ordenanças de prescrição da maneira em que se deve confessar e expiar, apenas são impostos aos vivos, e, de acordo com as mesmas ordenanças, não dizem respeito aos moribundos.

9ª Tese
Eis por que o Espírito Santo nos faz bem mediante o papa, excluindo este de todos os seus decretos ou direitos o artigo da morte e da necessidade suprema.

10ª Tese
Procedem desajuizadamente e mal os sacerdotes que reservam e impõe aos moribundos penitências canônicas ou para o purgatório a fim de ali serem cumpridas.

11ª Tese
Este joio, que é o de transformar a penitência e satisfação, prevista pelos cânones ou estatutos, em penitência ou penas do purgatório, foi semeado enquanto os bispos dormiam.

12ª Tese
Outrora canônica poenae, ou seja, penitência e satisfação por pecados cometidos, eram impostos, não depois, mas antes da absolvição, com a finalidade de provar a sinceridade do arrependimento e do pesar.

13ª Tese
Os moribundos tudo satisfazem com a sua morte e estão mortos para o direito canônico, sendo, portanto, dispensados, com justiça, de sua imposição.

14ª Tese
Piedade ou amor imperfeitos da parte daquele que se acha às portas da morte, necessariamente resultam em grande temor; logo, quanto menos o amor, tanto maior o temor.

15ª Tese
Este temor e espanto em si tão só, sem nos referirmos a outras coisas, basta para causar o tormento e o horror do purgatório, pois se avizinham da angústia do desespero.

16ª Tese
Inferno, purgatório e céu parecem ser tão diferentes quanto o são um do outro o desespero completo, incompleto ou quase desespero e certeza.

17ª Tese
Parece que assim como no purgatório diminuem a angústia e o espanto das almas, também deve crescer e aumentar o amor.

18ª Tese
Bem assim parece não ter sido provado, nem por boas razões e nem pela Escritura, que as almas do purgatório se encontram fora da possibilidade do mérito ou do crescimento no amor.

19ª Tese
Parece ainda não ter sido provado que todas as almas do purgatório tenham certeza de sua salvação e não receiem mais por ela, não obstante nós termos esta certeza.


20ª Tese
Por isso o papa não quer dizer e nem compreender com as palavras “perdão plenário de todas as penas” o perdão de todo o tormento, mas tão só as penas por ele impostas.

21ª Tese
Eis por que erram os apregoadores de indulgências ao afirmarem ser o homem perdoado de todas as penas e salvo mediante indulgência do papa.

22ª Tese
Com efeito, o papa nenhuma pena dispensa às almas do purgatório das que, segundo os cânones da igreja, deviam ter expiado e pago na presente vida.

23ª Tese
Verdade é que se houver qualquer perdão plenário das penas, este apenas será dado aos mais perfeitos, que são muitos poucos.

24ª Tese
Logo, a maioria do povo é ludibriado com as pomposas promessas do indistinto perdão, impressionando-se o homem singelo com as penas pagas.

25ª Tese
Exatamente o mesmo poder geral que o papa tem sobre o purgatório, qualquer bispo e cura d’almas o tem no seu bispado e na sua paróquia, quer de modo especial e quer para com os seus em particular.

26ª Tese
O papa faz muito bem em não conceder o perdão às almas em virtude do poder das chaves (coisa que não possui), mas pela ajuda ou em forma de intercessão.

27ª Tese
Pregam futilidades humanas quantos alegam que no momento em que a moeda soa ao cair na caixa a alma se vai do purgatório.

28ª Tese
Certo é que, no momento em que a moeda soa na caixa, vem lucro, e o amor ao dinheiro cresce e aumenta; a ajuda, porém, ou a intercessão da igreja tão só correspondem à vontade e ao agrado de Deus.

29ª Tese
E quem sabe, se todas as almas do purgatório querem ser libertadas, quando há quem diga o que sucedeu com S. Severino e Pascoal.

30ª Tese
Ninguém tem certeza da suficiência do arrependimento e pesar verdadeiros, muito menos certeza pode ter de haver alcançado pleno perdão dos seus pecados.


31ª Tese
Tão raro como existe alguém que possui arrependimento e pesar verdadeiros, tão raro também é aquele que verdadeiramente alcança indulgência, sendo bem poucos os que se encontram.

32ª Tese
Irão para o diabo, juntamente com os seus mestres, aqueles que julgam obter certeza de sua salvação mediante breves de indulgência.

33ª Tese
Há que acautelar-se muito e ter cuidado daqueles que dizem: A indulgência do papa é a mais sublime e mais preciosa graça ou dádiva de Deus, pela qual o homem é reconciliado com Deus.

34ª Tese
Tanto assim que a graça da indulgência apenas se refere à pena satisfatória, estipulada por homens.

35ª Tese
Ensinam de maneira ímpia quantos alegam que aqueles que querem livrar almas do purgatório ou adquirir breves de confissão não necessitam de arrependimento e pesar.

36ª Tese
Tudo o cristão que se arrepende verdadeiramente dos seus pecados e sente pesar por ter pecado, tem pleno perdão da pena e da dívida, perdão esse que lhe pertence mesmo sem breve de indulgência.

37ª Tese
Todo e qualquer cristão verdadeiro, vivo ou morto, é participante de todos os bens de Cristo e da Igreja, por dádiva de Deus, mesmo sem breve de indulgência.

38ª Tese
Entretanto se não devem desprezar o perdão e a distribuição deste pelo papa. Pois, conforme declarei, o seu perdão consiste numa declaração do perdão divino.

39ª Tese
Ë extremamente difícil, mesmo para os mais doutos teólogos, exaltar diante do povo ao mesmo tempo a grande riqueza da indulgência e, ao contrário, o verdadeiro arrependimento e pesar.

40ª Tese
O verdadeiro arrependimento e pesar buscam e amam o castigo; mas a profusão da indulgência livra das penas e faz com que se as aborreça, pelo menos quando há oportunidade para tanto.



41ª Tese
É necessário pregar cautelosamente sobre a indulgência papal, para que o homem singelo não julgue erradamente ser a indulgência preferível às demais obras de caridade ou melhor do que elas.

42ª Tese
Deve-se ensinar aos cristãos, não ser pensamento e opinião do papa que a aquisição de indulgências de alguma maneira possa ser comparada com qualquer obra de caridade.

43ª Tese
Deve-se ensinar aos cristãos, proceder melhor quem dá aos pobres ou empresta ao necessitado do que os que compram indulgência.

44ª Tese
É que pela obra de caridade cresce o amor ao próximo e o homem torna-se mais piedoso; pelas indulgências, porém, não se torna melhor senão mais seguro e livre da pena.

45ª Tese
Deve-se ensinar aos cristãos que aquele que vê seu próximo padecer necessidade e a despeito disto gasta dinheiro com indulgências, não adquire indulgência do papa, mas desafia a ira de Deus.

46ª Tese
Deve-se ensinar aos cristãos que, se não tiverem fartura, fiquem com o necessário para a casa e de maneira nenhuma o esbanjem com indulgências.

47ª Tese
Deve-se ensinar aos cristãos ser a compra de indulgência livre e não ordenada.

48ª Tese
Deve-se ensinar aos cristãos que se o papa precisa conceder mais indulgências, mais necessita de uma oração fervorosa do que de dinheiro.

49ª Tese
Deve-se ensinar aos cristãos serem muito boas as indulgências do papa enquanto o homem não confiar nelas; mas muito prejudiciais quando, em conseqüência delas, se perde o temor de Deus.

50ª Tese
Deve-se ensinar aos cristãos que se o papa tivesse conhecimento da traficância dos apregoadores de indulgência, preferiria ver a basílica de São Pedro ser reduzida a cinzas a ser edificada com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas.

51ª Tese
Deve-se ensinar aos cristãos que o papa, por um dever seu, preferiria distribuir o seu dinheiro aos que em geral são despojados do dinheiro pelos apregoadores de indulgência, vendendo, se necessário, a própria basílica de São Pedro.

52ª Tese
Esperar ser salvo mediante breves de indulgência é vaidade e mentira, mesmo se o comissário de indulgências e o próprio papa oferecessem sua alma como garantia.

53ª Tese
São inimigos de Cristo e do papa quantos por causa da prédica de indulgências proíbem a palavra de Deus nas demais igrejas.

54ª Tese
Comete-se injustiça contra a palavra de Deus quando, no mesmo sermão, se consagra tanto ou mais tempo à indulgência do que à pregação da palavra do Senhor.

55ª Tese
A intenção do papa não pode ser outra do que celebrar a indulgência, que é a coisa menor, com um toque de sino, uma pompa, uma cerimônia, enquanto o evangelho, que é o essencial, importa ser anunciado mediante cem toques de sino, centenas de pompas e solenidades.

56ª Tese
Os tesouros da igreja, dos quais o papa tira e distribui as indulgências, não são bastante mencionados e nem suficientemente conhecidos na Igreja de Cristo.

57ª Tese
É evidente que não são bens temporais, porquanto muitos pregadores não os distribuem com facilidade, antes os ajuntam.

58ª Tese
Também não são os merecimentos de Cristo e dos santos, porquanto este sempre são suficientes, e, independente do papa, operam graça do homem interior e são a cruz, a morte e o inferno do homem exterior.

59ª Tese
São Lourenço chama aos pobres, os quais são membros da Igreja, tesouros da Igreja, mas no sentido em que a palavra era usada na sua época.

60ª Tese
Afirmamos com boa razão, sem temeridade ou leviandade, que estes tesouros são as chaves da Igreja, que lhe foram dadas pelo merecimento de Cristo.

61ª Tese
Evidente é que, para o perdão das penas e para a absolvição em determinados casos, o poder do papa por si só basta.




62ª Tese
O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo evangelho da glória e da graça de Deus.

63ª Tese
Este tesouro, porém, é muito desprezado e odiado, porquanto faz com que os primeiros sejam os últimos.

64ª Tese
Enquanto isso o tesouro das indulgências é notoriamente o mais apreciado, porque faz com que os últimos sejam os primeiros.

65ª Tese
Por essa razão os tesouros evangélicos foram outrora as redes com que se apanhavam os ricos e abastados.

66ª Tese
Os tesouros das indulgências, porém, são as redes com que hoje se apanham as riquezas dos homens.

67ª Tese
As indulgências, apregoadas pelos seus vendedores como a mais sublime graça, decerto assim são consideradas porque lhes trazem grandes proventos.

68ª Tese
Nem por isso semelhante indulgência é a mais ínfima graça, comparada com a graça de Deus e a piedade da cruz.

69ª Tese
Os bispos e os sacerdotes são obrigados a receber os comissários das indulgências apostólicas com toda reverência.

70ª Tese
Entretanto tem muito maior dever de conservar abertos os olhos e ouvidos, para que estes comissários, em vez de cumprirem as ordens recebidas do papa, não apregoem os seus próprios sonhos.

71ª Tese
Quem levanta a sua voz contra a verdade das indulgências papais é excomungado e maldito.

72ª Tese
Aquele, porém, que se insurgir contra as palavras insolentes e arrogantes dos apregoadores de indulgências, seja abençoado.




73ª Tese
Da mesma maneira em que o papa usa de justiça ao fulminar com a excomunhão aos que em prejuízo do comércio de indulgências procedem astuciosamente.

74ª Tese
Muito mais deseja atingir com o desfavor e a excomunhão àqueles que, sob pretexto de indulgências, prejudicam a santa caridade e a verdade pela sua maneira de agirem.

75ª Tese
Considerar a indulgência do papa tão poderosa, a ponto de absolver alguém dos pecados, mesmo que (coisa impossível de se expressar) tivesse deflorado a mãe de Deus, significa ser demente.

76ª Tese
Bem ao contrário afirmamos que a indulgência do papa nem mesmo pode anular o menor pecado venial no que diz respeito a culpa que representa.

77ª Tese
Afirmar que nem mesmo São Pedro, se no momento fosse papa, poderia dispensar maior indulgência, constitui insulto contra São Pedro e o papa.

78ª Tese
Dizemos, ao contrário, que o atual papa, e todos os que o sucederam, é detentor de muito maior indulgência, isto é, o evangelho, dom de curar, etc., de acordo com o que diz 1 Corinto 12.6-9.

79ª Tese
Alegar ter a cruz de indulgências, erguida e adornada com as armas do papa, tanto valor como a própria cruz de Cristo é blasfêmia.

80ª Tese
Os bispos, padres e teólogos que consentem em semelhante linguagem diante do povo, terão de prestar contas desta atitude.

81ª Tese
Semelhante pregação, a enaltecer atrevida e insolentemente a indulgência, torna difícil até homens doutos defenderem a honra e dignidade do papa contra a calúnia e as perguntas mordazes e astutas dos leigos.

82ª Tese
Haja vista exemplo como este: Por que o papa não livra duma só vez todas as almas do purgatório, movido pela santíssima caridade e considerando a mais premente necessidade das mesmas, havendo santa razão para tanto, quando, em troca de vil dinheiro para a construção da basílica de São Pedro, livra inúmeras delas, logo por motivo bastante infundado?



83ª Tese
Outrossim: Por que continuam as exéquias e missas de ano em sufrágio das almas dos defuntos e não se devolve o dinheiro recebido para esse fim ou não se permite os doadores busquem de novo os benefícios ou prebendas oferecidos em favor dos mortos, quando já não é justo continuar a rezar pelos que se acham remidos?

84ª Tese
E: Que nova santidade de Deus e do papa é esta a consentir a um ímpio e inimigo resgate uma alma piedosa e agradável a Deus por amor ao dinheiro e não livrar esta mesma alma piedosa e amada por Deus do seu tormento por amor espontâneo e sem paga?

85ª Tese
E: Por que os cânones de penitência, isto é, os preceitos de penitência, que faz muito caducaram e morreram de fato pelo desuso, tornam a remir mediante dinheiro, pela concessão de indulgência, como se continuassem em vigor e bem vivos?

86ª Tese
E: Por que o papa, cuja fortuna é maior do que a de qualquer Creso, não prefere construir a basílica de São Pedro de seu próprio bolso em vez de o fazer com o dinheiro de cristãos pobres?

87ª Tese
E: Que perdoa ou concede o papa pela sua indulgência àqueles que pelo arrependimento completo tem direito ao perdão ou indulgência plenária?

88ª Tese
Afinal: Que benefício maior poderia receber a igreja se o papa, que atualmente o faz uma vez ao dia cem vezes ao dia concedesse aos fiéis este perdão a título gratuito?

89ª Tese
Visto o papa visar mais a salvação das almas mediante a indulgência do que o dinheiro, por que razão revoga os breves de indulgência outrora por ele concedidos, quando tem sempre as mesmas virtudes?

90ª Tese
Desfazer estes argumentos muito sutis dos leigos, recorrendo apenas à força e não por razões sólidas apresentadas, significa expor a igreja e o papa ao escárnio dos inimigos e desgraçar os cristãos.

91ª Tese
Se, portanto, a indulgência fosse apregoada no espírito e sentido do papa, estas objeções poderiam ser facilmente respondidas e nem mesmo teriam surgido.

92ª Tese
Fora, pois, com todos este pregadores que dizem à igreja de Cristo: Paz! Paz! Sem que haja paz!

93ª Tese
Abençoados, porém, sejam todos os pregadores que dizem à igreja de Cristo: Cruz! Cruz! Sem que haja cruz!

94ª Tese
Admoeste-se os cristãos a que se empenhem em seguir seu Cabeça, Cristo, através da cruz, da morte e do inferno;

95ª Tese
E desta maneira mais esperem entrar no reino dos céus por muitas aflições do que confiando em promessas de paz infundadas.