Meu desejo mais ardente é pincelar com cores genuínas a bondade de Deus para comigo e a profundidade de minha própria ingratidão – entretanto, isso é impossível, uma vez que inúmeras situações menores têm escapado à minha memória. Além do mais, tu expressas o desejo de que não tenho por que te dar uma minuciosa relação de meus pecados. Não obstante, tentarei deixar de lado o mínimo possível de faltas. Dependo de ti para destruí-las, uma vez que tua alma já absorveu aquelas verdades espirituais que Deus intentou, e a cujo propósito quero sacrifi car todas as coisas. Estou plenamente convencida de Seus desígnios para tua vida, bem como para a santifi cação dos outros, e também para tua própria santifi cação. Permite-me certifi car-te de que isso não se obtém a não ser por meio de dor, sofrimento e trabalho, e será alcançado por meio de uma vereda que decepcionará
profundamente tuas expectativas. Não obstante, se estiveres completamente convencido de que é sobre a esterilidade do homem que Deus estabelece Suas maiores obras, estarás, em parte, protegido contra a decepção ou surpresa. Ele destrói para poder edifi car, pois quandoestá prestes a edifi car Seu sagrado templo em nós, Eleprimeiro arrasa totalmente esse fútil e pomposo edifício que as artes e os esforços humanos erigiram, e, de suas terríveis ruínas, uma nova estrutura é formada, somente pelo Seu poder. Ó, que tu possas compreender a profundidade deste mistério e aprender os segredos da conduta de Deus, revelados às criancinhas, mas ocultos aos sábios e grandes deste mundo, que se consideram os conselheiros
do Senhor, e capazes de investigar Seus métodos, e supõem que obtiveram essa divina sabedoria, oculta aos olhos de todos aqueles que vivem em si mesmos e estão envoltos em suas próprias obras. Quem, por um vivo engenho e elevadas faculdades, sobe ao Céu e pensa compreender a altura, profundidade e largura de Deus?
Esta sabedoria divina é desconhecida, mesmo para aqueles que passam pelo mundo como pessoas de extraordinário conhecimento e iluminação. Quem, então, a conhece, e quem nos pode revelar algumas de suas incógnitas? A destruição e a morte asseguram-nos que eles escutaram com seus ouvidos acerca de sua fama e renome. É, portanto, morrendo para todas as coisas, e estando verdadeiramente desatentos a elas, seguindo adiante em direção a Deus, e existindo somente Nele, que chegamos a algum conhecimento da verdadeira sabedoria. Ó, quão pouco se sabe de seus caminhos e de sua conduta para com os seus servos eleitos. Raramente descobrimos algo dela, mas, surpresos com a dissimilitude existente entre a verdade recém-descoberta e nossas prévias idéias acerca dela, clamamos junto a São Paulo: “Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos!” (Rm 11.33). O Senhor não julga as coisas como fazem os homens, que chamam o mal de bem e o bem de mal, e têm por justo o que é abominável aos Seus olhos, coisas que, segundo o profeta, Ele considera trapos imundos. Deus submeterá a estrito juízo estes que se justifi cam a si mesmos, e, como os fariseus, serão mais objetos de Sua ira do que objetos de Seu amor, ou herdeiros de Suas recompensas. Não é o próprio Cristo que nos assegura que “se a [nossa] justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais [entraremos] no reino dos céus” (Mt 5.20)? E quem dentre nós se aproxima a eles em justiça? Ou que, se vivermos na prática de virtudes, embora muito inferiores às deles, não somos dez vezes mais ostentosos? Quem não se agrada em contemplar-se a si mesmo como justo aos seus próprios olhos, e aos olhos dos outros? Ou quem é que duvida que tal justiça basta para agradar a Deus? Todavia, vemos a indignação de nosso Senhor manifestada contra eles. Aquele que foi o padrão perfeito em ternura e mansidão, como a que fl uía do fundo do coração, e não como aquela mansidão fi ngida que, sob a forma de uma pomba, esconde o coração de um falcão. Ele se mostra severo somente com estas pessoas que se justifi cam, e as desonrou em público. Que estranha paleta de cores Ele utiliza para representá-las, enquanto sustenta o pobre pecador com misericórdia, compaixão e amor, e declara que só por ele foi que Ele veio, que era o enfermo que necessitavade médico; e que Ele só veio para salvar a ovelha perdida da casa de Israel.
Ó Tu, Manancial de Amor! Pareces de fato tão zeloso pela salvação dos que tens comprado que preferes o pecador ao justo! O pobre pecador, que se vê vil e miserável, é, por assim dizer, forçado a detestar-se a si mesmo; e, vendo que seu estado é tão horrível, e le se lança, em seu desespero, nos braços de seu Salvador, mergulha na fonte de cura e sai dela “branco como a neve”. Então, perplexo com o exame de seu estado de desordem, transborda de amor por Ele, que, tendo todo o poder, teve também a compaixão de salvá-lo – sendo o excesso de seu amor proporcional à enormidade de seus crimes, e a plenitude de sua gratidão, à extensão da dívida perdoada. Aquele que se justifi ca a si mesmo, apoiando-se nas muitas boas obras que imagina ter feito, parece segurar a salvação em suas próprias mãos e considera o céu como uma justa
recompensa para seus méritos. Na amargura de seu zelo, ele brada contra todos os pecadores e mostram as portas da misericórdia como que trancadas contra eles, e o Céu como um lugar ao qual eles não têm direito. Que necessidade têm tais pessoas, que se justifi cam a si mesmas, de um Salvador? Elas já têm a carga de seus próprios méritos. Ó, quanto tempo carregam a
carga lisonjeira, enquanto os pecadores, despojados de tudo, voam velozmente nas asas da fé e do amor para os braços de seu Salvador, que de graça lhes concede o que gratuitamente prometeu!
Quão cheios de amor próprio são os que se justifi cam a si mesmos, e quão vazios do amor de Deus! Eles se valorizam e se admiram em suas obras de justiça, que acreditam ser uma fonte de felicidade. Tão logo essas obras são expostas ao Sol da Justiça, descobrem que todas estão cheias de impureza e infâmia, e isso lhes afl ige sobremaneira. Enquanto isso, a pobre pecadora,
Madalena, é perdoada porque ama muito, e sua fé e amor são aceitos como justiça. O inspirado Paulo, que tão bem entendeu estas grandes verdades e tanto as investigou, assegura-nos que “isso [a fé de Abraão] lhe foi também imputado para justiça” (Rm 4.22). Isso é de fato precioso, pois é certo que todas as ações daquele santo patriarca foram estritamente justas; porém, não.
as vendo assim e estando livre do amor para com elas, e despojado de egoísmo, sua fé foi fundada sobre o Cristo que haveria de vir. Esperou Nele mesmo contra a própria esperança, e isso lhe foi imputado para justiça (Rm 4.18, 22), uma pura, simples e genuína justiça, feita por Cristo, e não uma justiça feita por si mesmo, e tida como sua justiça. Talvez penses que isso seja uma grave digressão do assunto, porém ela nos leva, inconscientemente, a ele. Mostra que Deus realiza Sua obra em pecadores convertidos, cujas iniqüidades do passado servem de contrapeso para seu engrandecimento, ou em pessoas cuja justiça própria Ele destrói, derrocando por completo.
o orgulhoso edifício que ergueram sobre um alicerce arenoso, e não sobre a Rocha – CRISTO.
A instauração de todos estes fi ns, para cujo propósito Ele veio ao mundo, efetua-se pela visível destruição dessa mesma estrutura que, na realidade, Ele erigiria. Por meios que parecem destruir a Sua Igreja, Ele a estabelece. De que estranha forma Ele funda a nova dispensação e lhe dá Seu beneplácito! O próprio Legislador é condenado pelos versados e poderosos como um malfeitor, e morre uma morte ignominiosa. Ó, que entendamos na íntegra quão oposta é nossa própria justiça aos desígnios de Deus – seria um assunto de humilhação sem fi m, e deveríamos ter uma verdadeira desconfi ança daquilo que, neste momento, constitui toda a nossa dependência
Partindo de um amor justo, próprio de Seu supremo poder, e de um zelo idôneo pela umanidade, que atribui a si mesma os dons que Ele mesmo concede, aprouve a Deus tomar uma das mais indignas criaturas da criação para tornar conhecido o fato de que Suas graças são os frutos de Sua vontade, e não os frutos de nossos méritos. É próprio de Sua sabedoria destruir o que está construído com orgulho e construir o que está destruído; fazer uso de coisas fracas para confundir os poderosos e empregar para Seu serviço aquele que parece vil e desprezível.
Isso Ele faz de uma forma tão surpreendente que chega a transformá-los nos objetos do escárnio e desprezo do mundo. Não é para atrair sobre eles a aprovação pública que Ele faz deles instrumento para salvação dos outros, mas para torná-los objetos de seu desgosto e súditos de seus insultos; como verás nesta vida sobre a qual tenho o encargo de escrever.
(Extraído do site www.editoradosclassicos.com.br - Auto Biografia de Madame Guyon - Editora dos Clássicos)
profundamente tuas expectativas. Não obstante, se estiveres completamente convencido de que é sobre a esterilidade do homem que Deus estabelece Suas maiores obras, estarás, em parte, protegido contra a decepção ou surpresa. Ele destrói para poder edifi car, pois quandoestá prestes a edifi car Seu sagrado templo em nós, Eleprimeiro arrasa totalmente esse fútil e pomposo edifício que as artes e os esforços humanos erigiram, e, de suas terríveis ruínas, uma nova estrutura é formada, somente pelo Seu poder. Ó, que tu possas compreender a profundidade deste mistério e aprender os segredos da conduta de Deus, revelados às criancinhas, mas ocultos aos sábios e grandes deste mundo, que se consideram os conselheiros
do Senhor, e capazes de investigar Seus métodos, e supõem que obtiveram essa divina sabedoria, oculta aos olhos de todos aqueles que vivem em si mesmos e estão envoltos em suas próprias obras. Quem, por um vivo engenho e elevadas faculdades, sobe ao Céu e pensa compreender a altura, profundidade e largura de Deus?
Esta sabedoria divina é desconhecida, mesmo para aqueles que passam pelo mundo como pessoas de extraordinário conhecimento e iluminação. Quem, então, a conhece, e quem nos pode revelar algumas de suas incógnitas? A destruição e a morte asseguram-nos que eles escutaram com seus ouvidos acerca de sua fama e renome. É, portanto, morrendo para todas as coisas, e estando verdadeiramente desatentos a elas, seguindo adiante em direção a Deus, e existindo somente Nele, que chegamos a algum conhecimento da verdadeira sabedoria. Ó, quão pouco se sabe de seus caminhos e de sua conduta para com os seus servos eleitos. Raramente descobrimos algo dela, mas, surpresos com a dissimilitude existente entre a verdade recém-descoberta e nossas prévias idéias acerca dela, clamamos junto a São Paulo: “Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos!” (Rm 11.33). O Senhor não julga as coisas como fazem os homens, que chamam o mal de bem e o bem de mal, e têm por justo o que é abominável aos Seus olhos, coisas que, segundo o profeta, Ele considera trapos imundos. Deus submeterá a estrito juízo estes que se justifi cam a si mesmos, e, como os fariseus, serão mais objetos de Sua ira do que objetos de Seu amor, ou herdeiros de Suas recompensas. Não é o próprio Cristo que nos assegura que “se a [nossa] justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais [entraremos] no reino dos céus” (Mt 5.20)? E quem dentre nós se aproxima a eles em justiça? Ou que, se vivermos na prática de virtudes, embora muito inferiores às deles, não somos dez vezes mais ostentosos? Quem não se agrada em contemplar-se a si mesmo como justo aos seus próprios olhos, e aos olhos dos outros? Ou quem é que duvida que tal justiça basta para agradar a Deus? Todavia, vemos a indignação de nosso Senhor manifestada contra eles. Aquele que foi o padrão perfeito em ternura e mansidão, como a que fl uía do fundo do coração, e não como aquela mansidão fi ngida que, sob a forma de uma pomba, esconde o coração de um falcão. Ele se mostra severo somente com estas pessoas que se justifi cam, e as desonrou em público. Que estranha paleta de cores Ele utiliza para representá-las, enquanto sustenta o pobre pecador com misericórdia, compaixão e amor, e declara que só por ele foi que Ele veio, que era o enfermo que necessitavade médico; e que Ele só veio para salvar a ovelha perdida da casa de Israel.
Ó Tu, Manancial de Amor! Pareces de fato tão zeloso pela salvação dos que tens comprado que preferes o pecador ao justo! O pobre pecador, que se vê vil e miserável, é, por assim dizer, forçado a detestar-se a si mesmo; e, vendo que seu estado é tão horrível, e le se lança, em seu desespero, nos braços de seu Salvador, mergulha na fonte de cura e sai dela “branco como a neve”. Então, perplexo com o exame de seu estado de desordem, transborda de amor por Ele, que, tendo todo o poder, teve também a compaixão de salvá-lo – sendo o excesso de seu amor proporcional à enormidade de seus crimes, e a plenitude de sua gratidão, à extensão da dívida perdoada. Aquele que se justifi ca a si mesmo, apoiando-se nas muitas boas obras que imagina ter feito, parece segurar a salvação em suas próprias mãos e considera o céu como uma justa
recompensa para seus méritos. Na amargura de seu zelo, ele brada contra todos os pecadores e mostram as portas da misericórdia como que trancadas contra eles, e o Céu como um lugar ao qual eles não têm direito. Que necessidade têm tais pessoas, que se justifi cam a si mesmas, de um Salvador? Elas já têm a carga de seus próprios méritos. Ó, quanto tempo carregam a
carga lisonjeira, enquanto os pecadores, despojados de tudo, voam velozmente nas asas da fé e do amor para os braços de seu Salvador, que de graça lhes concede o que gratuitamente prometeu!
Quão cheios de amor próprio são os que se justifi cam a si mesmos, e quão vazios do amor de Deus! Eles se valorizam e se admiram em suas obras de justiça, que acreditam ser uma fonte de felicidade. Tão logo essas obras são expostas ao Sol da Justiça, descobrem que todas estão cheias de impureza e infâmia, e isso lhes afl ige sobremaneira. Enquanto isso, a pobre pecadora,
Madalena, é perdoada porque ama muito, e sua fé e amor são aceitos como justiça. O inspirado Paulo, que tão bem entendeu estas grandes verdades e tanto as investigou, assegura-nos que “isso [a fé de Abraão] lhe foi também imputado para justiça” (Rm 4.22). Isso é de fato precioso, pois é certo que todas as ações daquele santo patriarca foram estritamente justas; porém, não.
as vendo assim e estando livre do amor para com elas, e despojado de egoísmo, sua fé foi fundada sobre o Cristo que haveria de vir. Esperou Nele mesmo contra a própria esperança, e isso lhe foi imputado para justiça (Rm 4.18, 22), uma pura, simples e genuína justiça, feita por Cristo, e não uma justiça feita por si mesmo, e tida como sua justiça. Talvez penses que isso seja uma grave digressão do assunto, porém ela nos leva, inconscientemente, a ele. Mostra que Deus realiza Sua obra em pecadores convertidos, cujas iniqüidades do passado servem de contrapeso para seu engrandecimento, ou em pessoas cuja justiça própria Ele destrói, derrocando por completo.
o orgulhoso edifício que ergueram sobre um alicerce arenoso, e não sobre a Rocha – CRISTO.
A instauração de todos estes fi ns, para cujo propósito Ele veio ao mundo, efetua-se pela visível destruição dessa mesma estrutura que, na realidade, Ele erigiria. Por meios que parecem destruir a Sua Igreja, Ele a estabelece. De que estranha forma Ele funda a nova dispensação e lhe dá Seu beneplácito! O próprio Legislador é condenado pelos versados e poderosos como um malfeitor, e morre uma morte ignominiosa. Ó, que entendamos na íntegra quão oposta é nossa própria justiça aos desígnios de Deus – seria um assunto de humilhação sem fi m, e deveríamos ter uma verdadeira desconfi ança daquilo que, neste momento, constitui toda a nossa dependência
Partindo de um amor justo, próprio de Seu supremo poder, e de um zelo idôneo pela umanidade, que atribui a si mesma os dons que Ele mesmo concede, aprouve a Deus tomar uma das mais indignas criaturas da criação para tornar conhecido o fato de que Suas graças são os frutos de Sua vontade, e não os frutos de nossos méritos. É próprio de Sua sabedoria destruir o que está construído com orgulho e construir o que está destruído; fazer uso de coisas fracas para confundir os poderosos e empregar para Seu serviço aquele que parece vil e desprezível.
Isso Ele faz de uma forma tão surpreendente que chega a transformá-los nos objetos do escárnio e desprezo do mundo. Não é para atrair sobre eles a aprovação pública que Ele faz deles instrumento para salvação dos outros, mas para torná-los objetos de seu desgosto e súditos de seus insultos; como verás nesta vida sobre a qual tenho o encargo de escrever.
(Extraído do site www.editoradosclassicos.com.br - Auto Biografia de Madame Guyon - Editora dos Clássicos)

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